Ahmadinejad e o “álibi” cultural


Publicado dia 28/04/2012 na Gazeta do Sul


Mais uma vez o insano presidente iraniano, levado a sério por alguns destrambelhados, fez uma declaração que merece não somente repúdio, mormente por nós brasileiros, mas uma reflexão mais profunda sobre o alcance político do relativismo cultural. Num mundo onde as “diferenças culturais” e os chamados “Outros” se tornaram referência moral e baliza da linguagem e do comportamento politicamente correto, é sempre delicado se manifestar sobre as atitudes praticadas por aqueles “estranhos” blindados pela ética do respeito à diversidade. Mesmo as atitudes mais nobres, como o respeito aos chamados diferentes, àqueles sujeitos culturais que pertencem a um mundo estranho para nós, trazem consigo um perigo, uma armadilha ardilosa. E o perigo, no caso, é a banalização do relativismo cultural nos jogos de interesses políticos ou mesmo como sustentação de uma arquitetura comportamental politicamente correta, geralmente hipócrita, mas de bom figurino.

Vamos ao caso. Frente a denúncias que envolvem um diplomata iraniano de abuso sexual de crianças e adolescentes brasileiros, de 9 a 14 anos de idade, em Brasília, Mahmoud Ahmadinejad respondeu dizendo que se tratava de um “mal-entendido” na interpretação dos fatos “devido às diferenças culturais”. No dia 19 último, o porta-voz iraniano, Mehmanparast, acusou a imprensa tupiniquim de tendenciosa e discriminatória. “Diferenças culturais” e “discriminação”: palavrinhas mágicas e imobilizadoras, carregadas de efeito moral. A pressão do governo brasileiro provocou uma mudança de atitude política do governo do Irã, que acabou declarando que o caso será investigado. Uma bobagem, evidentemente. O que deve nos indignar é o uso estratégico e criminoso da ideia de “diferenças culturais” para justificar atrocidades. O governo Lula já havia usado da mesma malandragem quando inquirido sobre a punição da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada, por “adultério”, a morte por apedrejamento. Na ocasião Lula “afirmou” que não podíamos opinar sobre o caso, pois devíamos respeitar às diferenças legais/culturais dos outros países. Lula se diz amigo pessoal do presidente do Irã. Isso nos faz pensar até que ponto as chamadas “diferenças culturais” interferem nessa amizade. Estranhíssimo...

O relativismo cultural, que foi um dos grandes avanços analíticos e políticos das ciências humanas na segunda metade do século XX, se apresenta hoje como um discurso sujeito a leviandades. É surpreendente que nos dias atuais ainda estejamos acreditando que as culturas são ilhas fechadas e com fronteiras refratárias aos “Outros”. Num mundo marcado pela dinâmica da diáspora, do hibridismo dos registros culturais, das trocas tecnológicas e políticas, o “Outro”, mesmo inapreensível em sua totalidade, como é óbvio, não é mais um estranho absoluto. É possível, sim, a crítica intercultural. Ou os diálogos interculturais estariam todos interditados?


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