A extrema-direita e as eleições na França

Publicado na Gazeta do Sul, dia 05/05/2012



Neste domingo, em que ocorre o sufrágio do segundo turno das eleições presidenciais na França, Nicolas Sarkozy ficará sabendo se coloca ou não o pijama, e, caso o faça, sofrerá o constrangimento de ter sido o primeiro presidente em mais de três décadas a não conseguir uma reeleição. A vitória, no primeiro turno, do socialista François Hollande só vem reforçar a tendência de rejeição do atual presidente, pois, como se sabe, Hollande assumiu a candidatura socialista no lugar do carismático Dominique Strauss-Kahn, ex-candidato natural do Partido Socialista que entrou em desgraça política em função dos escândalos sexuais protagonizados por ele em 2011.

O difícil equilíbrio entre uma política de austeridade, com cortes na área social, como é o caso da Previdência, e a liderança política assumida ao lado da Alemanha, para enfrentar a crise econômica europeia, ajuda a entender as dificuldades de Sarkozy. Na leitura dos franceses, amplificada pela oposição em período eleitoral, a “desgraça” econômica francesa é culpa da União Europeia. Há pouco tempo esse discurso foi amparado pelo rebaixamento da nota de crédito da França de AAA para AA+, pela agência de classificação de risco Standard & Poor's. Tudo isso abriu caminho para o crescimento do discurso nacionalista de extrema direita, encabeçado por Marine Le Pen, filha do histórico Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional (FN), partido de inspiração fascista e racista. Marine é a grande “surpresa” desta eleição. Conseguiu 20% dos votos no primeiro turno e conquistou o terceiro lugar, a frente do candidato esquerdista Jean-Luc Mélenchon. O discurso político de Marine Le Pen não difere de seus colegas de extrema-direita europeus, o alvo é sempre o mesmo: os imigrantes e a desnacionalização, lenga-lenga fácil de ser digerida pelas massas. Marine Le Pen fez campanha, por exemplo, alardeando o perigo da “islamização da França” e se posicionando abertamente contra o Euro. Entre os temas centrais de sua campanha destacam-se imigração e insegurança, e nessa direção, propõe medidas como a criação do Ministério do Interior, Imigração e Secularismo e a redução para 5% da cota anual permitida de entrada de imigrantes. No que diz respeito à economia, a proposta mais polêmica diz respeito à União Europeia: abandono do euro e restauração da moeda nacional.

A tentativa de criar um novo figurino para a FN tem feito Marine negar o que, de fato, sempre reafirma. A estratégia discursiva é vulgar e comum: trata-se de negar exatamente do que se afirma por outros meios. Assim sendo, Marine afirma que não prega a xenofobia, mas quer proibir a entrada de imigrantes e os acusa pelos índices de violência e decadência econômica; diz não ser racista, mas seu pai, líder da Frente Nacional, afirmava abertamente que o holocausto era apenas um detalhe da Segunda Guerra Mundial, e por aí vai. A “besta” ainda respira na Europa.

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