O 13 de maio e a abolição da escravatura

Publicado na Gazeta do Sul, dia 12 de maio de 2012



No dia 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel, em função da ausência de seu pai, D. Pedro II, assinara a abolição da escravidão no Brasil. Por muito tempo essa data figurou como o marco final de um regime cruel e perverso que por quase quatro séculos sangrou a história brasileira, até ser substituída em importância, no final dos anos 1970, pelo 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. A história do Brasil se funde com a escravatura. Considerando os 512 anos de existência do país, podemos considerar que três quartos de nossa História foi escravista. É difícil, para muitos de nós, entender o que significa essa temporalidade. É como se uma pessoa com 60 anos de idade tivesse passado 45 anos de sua vida no cativeiro, um tempo considerável e com marcas perenes.

Não pretendo discutir aqui o significado da escravidão no Brasil, o que pressuporia discutir as características da maioria das instituições nacionais, mas simplesmente o significado do 13 de maio, data contestada pelos movimentos sociais antirracistas contemporâneos, como o Movimento Negro, pelo qual tenho profundo respeito. Mas é preciso, de alguma forma, fazer justiça ao 13 de maio, considerado por muitos como uma data oficialesca, bajuladora de uma monarquia profundamente escravista que bancou de abolicionista. É fato que a monarquia foi escravista até os ossos. Basta dizer que a escravidão caiu em 1888 e no ano seguinte veio abaixo o regime, tal a dependência do sistema escravista. Contudo, há ainda um mal-estar em simplesmente refutar o 13 de maio. Óbvio que a Princesa Isabel tirou vantagem do ato, óbvio que o jogo político naquele contexto fez com que a data fosse de alguma forma sequestrada por antigos escravistas que figuraram de abolicionistas na última hora. Entretanto, é preciso considerar que ao abandonarmos o 13 de maio estamos silenciando inúmeros movimentos abolicionistas, sociedades e irmandades pró-abolição, inúmeros estouros de senzalas, inúmeros homens e mulheres que foram martirizados na luta pela abolição, inúmeros escravos e forros que foram as vias de fato pela liberdade, todo o movimento político que contou com homens como José do Patrocínio, Luis da Gama, Joaquim Nabuco, Silva Jardim, entre muitos outros. Luis da Gama, por exemplo, foi um advogado que conseguiu a liberdade de mais de mil escravos.

A opção pelo 20 de novembro é compreensível, assim como a reinvenção histórica de Zumbi como símbolo de lutas pela liberdade. Zumbi oxigenou os movimentos sociais antirracismo e refundou a história da abolição sob a liderança de um homem negro, o que foi um importante deslocamento político. Porém, é preciso considerar que o 13 de maio não foi um ato da Monarquia. Foi o desfecho de lutas onde encontramos escravos, ex-escravos, intelectuais, políticos, literatos e poetas, militares, religiosos e guerreiros de todas as matizes, que não merecem o esquecimento.  

Nenhum comentário: