O Café na História do Brasil

Publicado na Coluna História & Cotidiano, na Gazeta do Sul, no dia 26/05/12


Nessa semana foi comemorado o dia nacional do café, iniciativa empresarial (ABIC) que desde 2005 instituiu o dia 24 de maio, período da colheita no Brasil, como data comemorativa do produto que por quase três séculos está presente na vida dos brasileiros. Comemorações à parte, é bom lembrar um pouco da trajetória histórica da economia cafeeira nacional. Algumas lições podemos tirar desse processo histórico, pois o chamado “ouro negro” não só edificou e sustentou dois regimes, a monarquia (1822-1889) e a República Velha (1889-1930), mas também foi um dos grandes responsáveis pela derrocada de ambos.

O café foi introduzido no Brasil em 1727 por Francisco de Mello Palheta, que trouxe as primeiras sementes da Guiana Francesa para a Capitania do Pará, mas somente no início do século XIX, depois da queda da produção aurífera na Região das Gerais, o produto foi levado a sério. D. João VI, por volta dos anos 1810, distribuiu as primeiras mudas para sesmeros/escravistas da região do vale do Paraíba (RJ) e em pouco tempo o café se tornara o produto salvador da economia luso-brasileira. O Império foi fundado sobre a economia monocultora, exportadora e escravista assentada sobre sacas e sacas de café e mão de obra escrava. Aproveitando a expansão do mercado na Europa e EUA, a produção de café logo assumiu posição ímpar na economia nacional chegando, em 1850, a 49% de todos os produtos enviados para fora do país. A partir dos anos 1870, contudo, as elites fluminenses, conservadoras e ferreamente agarradas ao escravismo, não conseguiram mais manter os níveis de financiamento da lavoura que se esgotava nem mesmo suportar os custos com a reposição de escravos, cujo preço entrava em alta desde a proibição do tráfico africano, em 1850. As lavouras migravam para a região de São Paulo, onde acabou por encontrar as férteis terras-roxsa e um ambiente republicano mais simpático à substituição de mão de obra escrava que, no caso, significava a importação de europeus, sobretudo da Itália. O Movimento abolicionista acabou por criar um litígio entre os já decadentes produtores de café do RJ e a Monarquia, o que explica, em parte, que o regime tenha caído no ano seguinte à abolição. A falência das lavouras fluminenses levava consigo a monarquia.

O café, agora produzido em São Paulo, passou a sustentar outro regime, o Republicano. O modelo monocultor e exportador continuava o mesmo, o que iria se constituir no grande problema da chamada República Café com leite. Os barões do café, que dominavam o cenário político, fizeram do Estado um fiador das gigantescas safras garantir os preços no mercado internacional através da compra e estocagem do produto, à custa de endividamento e miséria social. Com a crise das bolsas de 1929 desabavam os preços e toda a economia dependente da monocultura cafeeira. A economia do café, que já respondia por mais de 70% das exportações, derrubava a República. Boas lições da monocultura!


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