Brasilidades

Publicado na Gazeta do Sul no dia 23 de junhlo de 2012


De Joaquim Nabuco a Roberto DaMatta temos uma miríade de autores considerados incontornáveis para quem quer se aventurar a entender a dinâmica da sociedade brasileira. E é a partir de uma seleta de interpretações de alguns deles que vamos elencar algumas características marcantes de nossa sociedade.

Em primeiro lugar, é preciso afirmar que esta é uma sociedade de tradição escravista e a lógica escravista perverte todo o sistema, tanto escravos como senhores são constituídos pela mesma matriz que embasa a escravidão. Não é sem sentido, por exemplo, que mantivemos por tanto tempo o trabalho doméstico não regulamentado, com pequenas senzalas modernas que chamamos dependência de empregada. O trabalho doméstico está para além de qualquer contrato formal, se constitui também no sistema do favor, da submissão e da pertença familiar. “A ‘fulana’ é como se fosse da família”. O escravismo marcou nosso sistema jurídico, econômico e político. Nossa primeira Constituição (1824) misturava o liberalismo, marcado no artigo 179, que tratava das garantias e liberdades individuais, ao mesmo tempo em que mantínha o escravo como instituição jurídica. Ainda somos uma sociedade que cultiva o formalismo da “igualdade política” com a “desigualdade social”. Na realidade, nossa burguesia sempre foi mais afeita aos tratamentos da nobreza, como, de fato, ocorria desde os tempos de D. João VI. Enquanto na Europa iluminista os ventos revolucionários aburguesavam a nobreza, derrubando o antigo regime, no Brasil, criávamos uma nobreza, tanto colonial como imperial, sedenta por mimos e privilégios sociais e econômicos. Daí que constituímos uma sociedade que mistura o público e o privado, uma sociedade em que o carteiraço ou o antipático “você sabe com quem está falando?” insistem em verticalizar as relações sociais.

Uma sociedade oriunda da tradição da nobreza e do escravismo tem dificuldades enormes em separar o público do privado. Entendemos a esfera pública como extensão da esfera privada. Dito de outra maneira, fazemos da coisa pública, do Estado, a extensão de nossa casa, da lógica familiar. Essa é a razão porque, mesmo na escola, as crianças chamam os professores(as) de tios/as, termos que remetem a intimidade familiar. Chamar de senhor(a), no nosso caso, é frio e pouco afetivo. Mas é exatamente essa mesma dinâmica social que faz com que nossas crianças tratem o patrimônio escolar com desdém. O desdobramento disso é o pouco caso com o patrimônio público, com as ruas e, claro, com o erário público. Como nos diz DaMatta, “limpamos a casa regularmente e sujamos a rua cotidianamente”. A rua, por sinal, é o lugar do perigo e da igualdade. Quando se demite alguém do trabalho se diz: “Vá pra rua” ou “está no olho da rua”. Quando as coisas vão mal, dizemos: “estamos na rua da amargura”. Para finalizar, a cidadania, essa condição necessária para a igualdade e respeito às leis, entre nós, é um grande mal-entendido.

Guerra das Malvinas: 30 anos

Publicado na Gazeta do Sul, dia 16 de junho de 2012



As guerras geralmente escondem pretextos e motivações obscuras, não raramente jogam milhares de pessoas - jovens, em sua maioria - num inferno sem sentido algum. No caso da Guerra das Malvinas, ou Falklands War, como é chamada na Inglaterra, os motivos que levaram ao conflito foram dos mais perversos. Na realidade, em que pese as contendas entre Argentina e Inglaterra sobre a soberania das Ilhas, Malvinas foi uma manobra política que visava salvar uma das mais cruentas e revoltantes ditaduras militarres latino-americana. O governo do ditador Galtieri, em 1982, enfrentava uma crise econômica e social aguda, o que motivava constantes manifestações populares contra o regime. Malvinas foi a manobra suicida de um governo que, para se manter no poder, não hesitou em mobilizar o sentimento patriótico e nacionalista dos argentinos e se lançar numa guerra contra uma das maiores potências marítimas do planeta.

A guerra, na perspectiva diplomática, não fazia sentido algum. As questões que envolviam o arquipélago das Malvinas eram muito antigas e não suscitavam maiores empenhos e comprometimentos dos governos argentino e britânico, acreditando-se, inclusive, que frente às boas relações entre os dois países, a Inglaterra cederia as Falklands à Argentina. Galtieri, na sua truculência intelectual e falta de senso estratégico, apostava que a Inglaterra não se mobilizaria numa guerra nos mares do Sul e, assim, no dia 02 de abril de 1982, fez desembargar as primeiras frotas nas Ilhas. A resposta do governo inglês foi inesperada e rápida. No dia 22 do mesmo mês as tropas britânicas, formadas por soldados profissionais e mercenários, adentravam no arquipélago. Como chama atenção Wagner Ribeiro, estudioso do tema, “o erro crasso de Galtieri foi desconsiderar que o mesmo motivo que o levou a dar início à guerra também serviria aos propósitos da Inglaterra de Margaret Hilda Thatcher”. Na ocasião, a chamada Dama de Ferro carecia de apoio popular entre os ingleses e, com a mobilização e vitória no conflito, acabou por ser reeleita em 1983 e permanecendo no poder até 1990, enquanto a ditadura de Galtieri despencava, levando consigo a Argentina.

No dia 13 de junho a Argentina estava derrotada e no dia seguinte o General Mario Menéndez assinara a humilhante rendição. Como resultado do conflito, 649 soldados argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas foram mortos. Hoje os ex-combatentes ainda convivem com a humilhação da derrota, com o desproposito da guerra e com o abandono, ainda por parte do governo de Cristina Kirchner. Estima-se que mais de 700 ex-combatentes tenham se suicidado, um número maior dos que tombados em combate. Tem-se, a partir desse dado, a dimensão da trajédia da Guerra das Malvinas. Recentemente, com a descoberta de petróleo nas Ilhas, Kirchner resolveu retomar a “questão” Malvinas, e não deixa de utilizá-la para mobilização do nacionalismo, com evidentes frutos plebicitários.  

O Anacrônico Dia dos Namorados


Publicado no jornal Gazeta do Sul em 09 de junho de 2012



A origem do dia dos namorados, ou de São Valentim, comemorado desde a Idade Média na Europa, em 14 de fevereiro, é baseada em lendas e histórias inverossímeis, impossíveis de serem investigadas com segurança. No Brasil, diferentemente da tradição da maioria dos países europeus, o dia dos namorados está associado a Santo Antônio de Lisboa, o Santo casamenteiro, ordinariamente cobrado e castigado pelas moçoilas solteiras de outrora. Por aqui, em que pese a data ser marcada por um Santo, ao estilo Valentim, a motivação para a comemoração de um dia dos namorados não fora tão nobre. Em 1949, por iniciativa dos comerciantes paulistas, que consideravam o mês de junho o pior dos meses para as vendas, fora criado, com auxílio do marqueteiro João Dória (inventor, também, do dia das mães), o primeiro dia dos namorados no país. De lá pra cá muita coisa mudou, inclusive a ideia de relacionamento baseado no amor romântico, modalidade associada a burguesia do início da era moderna. Vivemos uma época de transição desse tipo de amor burguês, baseado na ideia de perenidade. Hoje seria mais prudente, para não cair no anacronismo, falar em “experiência efêmera de intimidade com o outro”, que não traz a maioria das “obrigações” e “responsabilidades” que antes eram questão de honra nos relacionamentos amorosos. Não se trata de postura nostálgica, evidentemente, mas de uma constatação histórico-sociológica atestada por vários historiadores. O que se tinha como amor romântico e responsável, hoje é tido como uma relação efêmera com o outro, espécie de consumo ou utilização desse outro.

Vivemos numa sociedade baseada na busca incessante do prazer, uma sociedade hedonista que não suporta a espera, a frustração, o fracasso e, evidentemente, a não saciação dos desejos. Esta é uma sociedade infantilizada que, como as crianças, nega a espera entre o desejo e a satisfação. Uma sociedade que fez da lógica do hiperconsumo a lógica da dinâmica social. A busca do prazer imediato se transformou na dinâmica das relações humanas, no caso, as “amorosas”. Utilizar o outro de forma hedonista é o oposto de pensar o outro na sua integridade, o que implicaria também na ideia de cuidado. O individualismo irresponsável, estimulado pela sociedade de hiperconsumo, fez das relações afetivas um jogo de utilização, um jogo presenteísta, do viver o momento. Na dinâmica do hiperconsumo, as pessoas são tão descartáveis como os bens que obcessivamente adquirimos. Nas relações contemporâneas, o outro, como objeto de consumo, não deverá implicar num futuro, deverá ser um outro condenado ao passado imediato. Pois bem, reza a lenda que São Valentim morreu por desrespeitar as ordens de Cláudio II (Imperador de Roma), que havia proibido os casamentos em tempos de guerra. Valentim teria continuado os casórios e, inclusive, casado em sigilo. Pagou um preço alto, morreu por amor, algo impensado na sociedade do aqui e agora.

Só Piora!




Duas revistas, a Veja e a Carta Capital, estão em “guerra”, e quando dois veículos de comunicação entram em “guerra” a primeira vítima é a verdade. O motivo da contenda são os sistemáticos ataques de Carta Capital a Veja em função dos escândalos que envolvem o jornalista Policarpo Júnior e o criminoso Carlinhos Cachoeira. O que é interessante nesse embate não é nem saber quem tem ou não razão, mas a forma como os discursos são articulados e as estratégias políticas utilizadas. Capitaneando as duas revistas, estão os editores Mino Carta, da Carta Capital e Roberto Civita, da Veja. Mino Carta, que já foi editor da Veja, tem escrito editoriais empolados e agressivos contra seu colega, acusando-o de tudo que é tipo de vigarices jornalísticas, sobretudo no que diz respeito às relações de Carlinhos Cachoeira com a revista, bem como de conluio, apoiado pela Globo, para atacar sistematicamente o governo do PT. Apoiada nas denúncias contra Policarpo Júnior, Carta Capital, revista “chapa-branca” do governo, procura, então, desmoralizar a Veja que, vale notar, se autointitula defensora implacável da liberdade de imprensa e da democracia. A Veja tem assumido uma postura abertamente direitista, o que não é nenhum problema, contudo, para afirmar sua postura, adotou uma estratégia absolutamente condenável: aposta na ignorância de seus leitores.

A Veja tem alvos que são sistematicamente atacados, vilipendiados e humilhados: professores, intelectuais, acadêmicos e todo e qualquer tipo que possa ser associado, segundo os critérios da Veja, bem entendido, ao pensamento de “esquerda”. Qualquer postura crítica é prontamente estereotipada e condenada. Na última edição, num arroubo “macartista”, chamou o pensador italiano Antonio Gramsci, autor de Cadernos do Cárcere, de terrorista. Bobagens como essa pululam semanalmente na Revista.

Aos ataques da Carta Capital e às acusações que envolvem Carlinhos Cachoeira, a Veja continua calada, se preocupa mais em tentar desmoralizar quem a acusa, mas, na última edição, lançou mão das tintas de um intelectual, costumeiramente presente na Revista, para defendê-la. Lamentável o papel do geógrafo Demétrio Magnoli. Ele consegue a proeza de sair em defesa do indefensável. Essa é a atitude típica de intelectuais orgânicos, para usar a expressão do “terrorista” Antônio Gramsci, que agem em nome de uma instituição ou organização. Magnoli foi chamado para o serviço sujo da Veja e, em seu longo texto, o que ele fez foi repisar a velha tática de atacar quem acusa a revista, no caso, o editor de Carta Capital, Mino Carta, que, vale notar, de “santinho” não tem nada.

Em tempo: Carlinhos Cachoeira, para lembrar, tem como advogado o ex-ministro da justiça Márcio Thomaz Bastos. O ex-ministro está recebendo, como honorários, a bagatela de R$ 15 milhões (em dinheiro sujo e sem origem) para defender o bicheiro, motivo pelo qual está sendo investigado por lavagem de dinheiro. Só piora.

História e Higiene: curiosidades

Publicado na Gazeta do Sul, dia 02 de junho



Os hábitos e comportamentos sociais são construções históricas que, vale dizer, são fascinantes de serem estudados, pois nos permite uma compreensão mais clara de como nós, sujeitos históricos, somos constituídos também. Noutras palavras, a História tem essa capacidade ímpar de nos situar no tempo, de nos fazer pensar o que somos e, mais, como nos tornamos o que somos. Observando as sociedades contemporâneas ocidentais, um dos fenômenos mais interessantes com que nos deparamos é a higienização e medicalização da vida. Nossa alimentação hoje é quase um receituário sobre o que se deve ou não comer. Nossos hábitos cotidianos são regulados em função da saúde. Nossas casas são planejadas a partir de critérios higiênicos. Os banheiros, por exemplo, foram multiplicados, considerando as moradias de poucas décadas passadas. A higiene foi o primeiro movimento pró-saúde pública que entrou na agenda das políticas do Estado moderno. O movimento higienista no início do séc. XX moldou as bases da Medicina Social. Quando nos deparamos com a história da higiene no ocidente é que nos damos conta de como esses hábitos e comportamentos são relativamente recentes, datam do final do século XVIII. Os filmes de príncipes e princesas que volta e meia assistimos são construções generosíssimas, pouquíssimas princesas ou príncipes possuíam dentes na boca.

Ao analisar os hábitos à mesa, o historiador Norbert Elias chama a atenção que dentre os objetos de valor no inventário de Carlos V, havia menos que uma dúzia de garfos. No inventário de Carlos de Savóia, homem riquíssimo, havia apenas um garfo. Comia-se com as mãos. Recomendavam os Tratados dos sécs. XVI e XVII: a) que ninguém antes, durante ou após as refeições, suje as escadas, corredores ou armários com urina ou outras sujeiras; b) Não escarres por cima da mesa nem tão longe que tenha que procurar o escarro para pisá-lo com o pé; c) Assoar o nariz no chapéu ou na manga é grosseiro; d) é indelicado assoar o nariz na toalha da mesa; e) É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando, etc.

Sobre os banhos? De um a três por ano. As famílias usavam a mesma banheira e a mesma água, reservando o último banho às crianças. Daí o cuidado de não jogar a criança fora com a água da banheira. O mês de maio era o mês dos banhos, e por isso dos casamentos também, quando o odor tinha menor impacto. Daí o mês das noivas. Na época da peste, no séc. XIV, Eduardo III tomou três banhos em três meses e escandalizou Londres. Segundo o historiador John Kelly, Santa Inês e Santa Catariana de Siena, morreram sem jamais terem tomado banho.

Os Tratados sobre higiene só começaram a surgir a partir do século XVI, e direcionados à nobreza. A popularização desses hábitos somente ocorreu quando as classes pobres passaram a representar um perigo social, e lentamente, a partir do final do séc. XIX. Banho diário? Somente no tempo de nossos bisavós!