História e Higiene: curiosidades

Publicado na Gazeta do Sul, dia 02 de junho



Os hábitos e comportamentos sociais são construções históricas que, vale dizer, são fascinantes de serem estudados, pois nos permite uma compreensão mais clara de como nós, sujeitos históricos, somos constituídos também. Noutras palavras, a História tem essa capacidade ímpar de nos situar no tempo, de nos fazer pensar o que somos e, mais, como nos tornamos o que somos. Observando as sociedades contemporâneas ocidentais, um dos fenômenos mais interessantes com que nos deparamos é a higienização e medicalização da vida. Nossa alimentação hoje é quase um receituário sobre o que se deve ou não comer. Nossos hábitos cotidianos são regulados em função da saúde. Nossas casas são planejadas a partir de critérios higiênicos. Os banheiros, por exemplo, foram multiplicados, considerando as moradias de poucas décadas passadas. A higiene foi o primeiro movimento pró-saúde pública que entrou na agenda das políticas do Estado moderno. O movimento higienista no início do séc. XX moldou as bases da Medicina Social. Quando nos deparamos com a história da higiene no ocidente é que nos damos conta de como esses hábitos e comportamentos são relativamente recentes, datam do final do século XVIII. Os filmes de príncipes e princesas que volta e meia assistimos são construções generosíssimas, pouquíssimas princesas ou príncipes possuíam dentes na boca.

Ao analisar os hábitos à mesa, o historiador Norbert Elias chama a atenção que dentre os objetos de valor no inventário de Carlos V, havia menos que uma dúzia de garfos. No inventário de Carlos de Savóia, homem riquíssimo, havia apenas um garfo. Comia-se com as mãos. Recomendavam os Tratados dos sécs. XVI e XVII: a) que ninguém antes, durante ou após as refeições, suje as escadas, corredores ou armários com urina ou outras sujeiras; b) Não escarres por cima da mesa nem tão longe que tenha que procurar o escarro para pisá-lo com o pé; c) Assoar o nariz no chapéu ou na manga é grosseiro; d) é indelicado assoar o nariz na toalha da mesa; e) É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando, etc.

Sobre os banhos? De um a três por ano. As famílias usavam a mesma banheira e a mesma água, reservando o último banho às crianças. Daí o cuidado de não jogar a criança fora com a água da banheira. O mês de maio era o mês dos banhos, e por isso dos casamentos também, quando o odor tinha menor impacto. Daí o mês das noivas. Na época da peste, no séc. XIV, Eduardo III tomou três banhos em três meses e escandalizou Londres. Segundo o historiador John Kelly, Santa Inês e Santa Catariana de Siena, morreram sem jamais terem tomado banho.

Os Tratados sobre higiene só começaram a surgir a partir do século XVI, e direcionados à nobreza. A popularização desses hábitos somente ocorreu quando as classes pobres passaram a representar um perigo social, e lentamente, a partir do final do séc. XIX. Banho diário? Somente no tempo de nossos bisavós!

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