O Anacrônico Dia dos Namorados


Publicado no jornal Gazeta do Sul em 09 de junho de 2012



A origem do dia dos namorados, ou de São Valentim, comemorado desde a Idade Média na Europa, em 14 de fevereiro, é baseada em lendas e histórias inverossímeis, impossíveis de serem investigadas com segurança. No Brasil, diferentemente da tradição da maioria dos países europeus, o dia dos namorados está associado a Santo Antônio de Lisboa, o Santo casamenteiro, ordinariamente cobrado e castigado pelas moçoilas solteiras de outrora. Por aqui, em que pese a data ser marcada por um Santo, ao estilo Valentim, a motivação para a comemoração de um dia dos namorados não fora tão nobre. Em 1949, por iniciativa dos comerciantes paulistas, que consideravam o mês de junho o pior dos meses para as vendas, fora criado, com auxílio do marqueteiro João Dória (inventor, também, do dia das mães), o primeiro dia dos namorados no país. De lá pra cá muita coisa mudou, inclusive a ideia de relacionamento baseado no amor romântico, modalidade associada a burguesia do início da era moderna. Vivemos uma época de transição desse tipo de amor burguês, baseado na ideia de perenidade. Hoje seria mais prudente, para não cair no anacronismo, falar em “experiência efêmera de intimidade com o outro”, que não traz a maioria das “obrigações” e “responsabilidades” que antes eram questão de honra nos relacionamentos amorosos. Não se trata de postura nostálgica, evidentemente, mas de uma constatação histórico-sociológica atestada por vários historiadores. O que se tinha como amor romântico e responsável, hoje é tido como uma relação efêmera com o outro, espécie de consumo ou utilização desse outro.

Vivemos numa sociedade baseada na busca incessante do prazer, uma sociedade hedonista que não suporta a espera, a frustração, o fracasso e, evidentemente, a não saciação dos desejos. Esta é uma sociedade infantilizada que, como as crianças, nega a espera entre o desejo e a satisfação. Uma sociedade que fez da lógica do hiperconsumo a lógica da dinâmica social. A busca do prazer imediato se transformou na dinâmica das relações humanas, no caso, as “amorosas”. Utilizar o outro de forma hedonista é o oposto de pensar o outro na sua integridade, o que implicaria também na ideia de cuidado. O individualismo irresponsável, estimulado pela sociedade de hiperconsumo, fez das relações afetivas um jogo de utilização, um jogo presenteísta, do viver o momento. Na dinâmica do hiperconsumo, as pessoas são tão descartáveis como os bens que obcessivamente adquirimos. Nas relações contemporâneas, o outro, como objeto de consumo, não deverá implicar num futuro, deverá ser um outro condenado ao passado imediato. Pois bem, reza a lenda que São Valentim morreu por desrespeitar as ordens de Cláudio II (Imperador de Roma), que havia proibido os casamentos em tempos de guerra. Valentim teria continuado os casórios e, inclusive, casado em sigilo. Pagou um preço alto, morreu por amor, algo impensado na sociedade do aqui e agora.

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