De Freyre a FHC: Ironias (parte II)

Publicado em 21 de julho na Gazeta do Sul.



Desde a década de 1920, São Paulo tomava a frente da política, da econômica e da cultura do país, em detrimento da decadência do nordeste, símbolo do atraso colonial e escravista. Dos anos 1960 em diante as críticas a Gilberto Freyre se tornaram até mesmo redundantes, orbitando em torno de uma versão marxista que apontava para a visão elitista do autor de Casa-Grande & Senzala, oriundo de uma família aristocrática de Pernambuco. Sua postura política “conservadora”, na realidade, fustigava sua imagem de intelectual ineditista e mesmo revolucionário em sua época. Não haveria espaço para Freyre nesse novo arranjo cultural da pauliceia.

Dentre os membros dessa geração de intelectuais da Escola de São Paulo, está FHC, um dos responsáveis pela crítica à Escola Nordestina, nomeadamente à Freyre. Freyre fora acusado de fazer uma ode à mestiçagem como prova da inexistência de racismo no Brasil e transformá-la numa “prova” de que a tradição escravista não teria tido contornos tão violentos, pois as relações entre senhores e escravos teriam sido marcadas também por uma convivência até mesmo afetiva. Traduzindo: Freyre era o ideólogo da democracia racial. FHC deitou litros de tintas criticando a obra de Freyre e ajudou a colocá-lo no ostracismo. A influência intelectual de Freyre passou a ficar circunscrita ao Nordeste, sobretudo Pernambuco.

Freyre fora Deputado Federal e um opositor contumaz da ditadura varguista. Considerava-se apolítico, em que pese ter sido deputado pela UDN. Foi um contumaz crítico do racismo e um libertário do ponto de vista cultural. Foi homenageado em inúmeras universidades pelo mundo afora, onde ministrou aulas e conferências. Publicou 67 livros, além de coletâneas de artigos e conferências. Sua obra foi traduzida para diversos idiomas.

Ironicamente, FHC, ex-presidente, intelectual renomado internacionalmente, autor de obras inovadoras, como Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, é um dos políticos mais contornados e escanteados de nossa história recente. Paradoxalmente, ele, que é associado à “privataria tucana”, acusado de ter feito alianças políticas espúrias e oportunistas, foi um dos mais importantes críticos da direita nos anos 1960 e 1980 e o primeiro estadista a reconhecer publicamente o racismo no Brasil e iniciar o processo que levaria, no governo Lula, às mais contundentes políticas afirmativas de reparação “histórica”. FHC fora colocado no ostracismo não apenas pela era Lula, mas pelos próprios correligionários. Sua obra, em função disso, também passou a ser vista com desconfiança e seus textos ignorados. Hoje, com mais de oitenta anos, é o autor do manifesto da “descriminalização da maconha”, solenemente ignorado pelos setores sociais que seriam simpáticos a mesma causa. FHC, um intelectual brilhante para sua época, acabou por ser colocado no ostracismo por sua postura política, da mesma forma que Freyre.


2 comentários:

Carlos Arruda disse...

Foi o próprio FHC que pediu que esquecessem tudo o que escrevera.

Mozart Linhares da Silva disse...

Exatamente, foi um ato coerente para quem leu a fundo Max Weber. O problema é que não entenderam a diferença entre ciência e política. Eu, por sinal, gosto daqueles que não pensam a mesma coisa sempre, que têm a capacidade de mudar,