De Gilberto Freyre a FHC: ironias! (parte I)


Publicado em 14 de julho da Coluna História & Cotidiano, na Gazeta do Sul


O adágio popular “o mundo dá voltas”, pode nos remeter, em determinadas situações, à ironia das “repetições”, do feitiço que retorna ao feiticeiro, nos direciona o olhar para um segundo acontecimento. Chamo a atenção para dois personagens de nossa História recente que me fazem pensar nessa ironia dos acontecimentos que redundam. Lembro aqui de dois intelectuais que tiveram imensa importância nos seus respectivos contextos políticos: Gilberto Freyre (1900-1987) e Fernando Henrique Cardoso (1931 - ). Penso que ambos compartilham de um “destino” semelhante: o ostracismo político-intelectual. Mas o que aproxima FHC de Gilberto Freyre, nesse caso? Freyre foi, e é, um dos maiores pensadores da cultura que esse país viu nascer, e, certamente, um dos mais mal interpretado pela doxa corrente da intelectualidade dos anos 1960-80, quando esse intérprete do Brasil, em função de algumas posturas politicas nitidamente conservadoras, fora colocado na lata do lixo da História, e com ele sua monumental obra. Freyre foi autor da trilogia Casa-grande & Senzala (1933); Sobrados & Mucambos (1936) e Ordem & Progresso (1959), onde analisou exaustivamente, e com erudição inigual, a formação da sociedade brasileira, desde sua constituição patriarcal baseada na família colonial dos engenhos nordestinos até a decadência do patriarcado no século XIX e o advento da República. Portanto, procurou uma interpretação da cultura brasileira que desse conta de uma totalidade história que compreende os três grandes contextos: colonial, imperial e republicano. Trata-se de uma obra fundamental para pensar o Brasil e entender o quanto a própria construção da “identidade nacional” dos anos 1930 pra cá fora, de alguma forma, tributária à interpretação do Brasil por Gilberto Freyre. Em Casa-Grande & Senzala, inaugurou uma interpretação da sociedade brasileira em que, pioneiramente, refutava o determinismo racial, o complexo de inferioridade imputado aos brasileiros pelo etnocentrismo racialista europeu e, o que é mais marcante, exaltou pela primeira vez a mestiçagem como símbolo positivo da civilização nacional, posicionando uma crítica efetiva ao racismo como fator explicativo do desenvolvimento social do país. Casa-grande & Senzala foi publicada no ano de 1933, antes mesmo da Europa se engalfinhar numa guerra em que os ideais de “raça pura” levaram às maiores tragédias da História. Freyre fez parte da chamada geração de intelectuais da Escola do Nordeste, cujo centro irradiador fora criado por ele, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em Pernambuco. A partir dos anos 1960 passou a ser fustigado pela geração de acadêmicos vinculados a USP que se autoproclamaram inventores do pensamento social de cunho científico e profissional no país. Acelerava-se o processo, iniciado na década de 1920, de “paulistanização” da cultura brasileira, e com ele uma nova narrativa da nação.

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