Fast Science

Publicado dia 07 de julho de 2012 na Gazeta do Sul



Qualquer país que esteja em crescimento deve ou deveria investir em educação e pesquisa. Para tanto, algumas estratégias precisam ser construídas de modo que a produção científica nacional não apenas traga avanços ao país, mas, também, galgue boas posições nos rankings internacionais, pois isso não só traz reconhecimento, mas, também, financiamentos. No mundo da produção transnacionalizada, a produção científica passou a ser, da mesma forma, um “produto” que precisa transitar em alta velocidade pelo mercado global.

A entrada do Brasil no mercado global da ciência, no entanto, vem sendo feita aos trancos e barrancos, com consequências que precisam, uma hora ou outra, serem mensuradas pelos burocratas de Brasília, que ocupam o tempo atravancando a vida dos pesquisadores com demandas, geralmente, inúteis. A política de gestão da ciência brasileira passou a seguir uma tendência que desde os anos 1980 vinha se instituindo nos EUA e Europa, quando a globalização impôs um ritmo extremamente veloz à produção, inclusive a acadêmica. Nosso problema é ter entrado tardiamente num mercado já bem estabelecido e superar rapidamente alguns atrasos. O alvo da política de gestão governamental recaiu, majoritariamente, sobre os professores/pesquisadores dos Programas de Pós-graduação (mestrado e doutorado), obrigados a cumprir uma agenda de atividades pedagógicas enorme, nos níveis de graduação e pós-graduação, orientar alunos e novos pesquisadores, participar de Grupos de Pesquisas, de preferência interinstitucionais, concorrer a editais de financiamento junto às agencias financiadoras, e, ainda, publicar um número cada vez maior de artigos em periódicos qualificados, os duvidosos Qualis nacionais e internacionais. Tudo isso somado a um conjunto de formulários, prestações de contas, relatórios e inúmeras inutilidades que superocupam o tempo que deveria ser utilizado para a digna produção acadêmica. Eis o paradoxo: o governo quer engordar estatísticas, mas atravanca a produção científica.

Como resistência a essa acelerada linha de produção científica surgiu um movimento na Europa intitulado slow Science que visa justamente recuperar a dignidade da atividade científica que, frente a essas exigências insanas, passou a ser ameaçada por comportamentos nada elogiáveis. Alguns efeitos negativos já começam a aparecer por consequência dessa política. Aumentamos significativamente a produção de artigos científicos (Ver site da CAPES), mas não temos, na maioria das vezes, mensuração da qualidade dessas publicações. O autoplágio, a republicação de textos e a prática de assinar artigos de outros pesquisadores já começam a preocupar. Thomaz Wood Jr, que tratou desse assunto na Revista Carta Capital, ponto de partida para esse texto, afirma que “por aqui a fast Science levou a criação de uma slow bureaucracy, que avalia e controla o aparato científico”. O lema da academia brasileira hoje parece ser: “publique ou desapareça”.

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