O Cachimbo do Saci

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 28 de julho de 2012


Eis que o Saci-Pererê, personagem do folclore nacional, caiu na malha fina da censura do “politicamente correto”! Pois que o Saci foi tolhido do seu inseparável cachimbo e que, nas novas versões da lenda, já não fará parte dos adereços do peralta. O cachimbo do Saci nos leva a pensar como nos submetemos, voluntariamente, ao fascismo do policiamento e as estratégias de controle culturais. Até que ponto o “politicamente correto” é interessante para o convívio social? Até que ponto o fiel da balança descamba para o ridículo, para o constrangedor, para o modismo cínico? Não é sem sentido que não se vive mais a velhice e sim a melhor idade, esse termo cínico e hipócrita que ludibria o tempo final da vida. Vivemos um tempo em que devemos dizer as coisas conforme algumas convenções e não conforme o que pensamos. Consagramos a hipocrisia e a transformamos em código de convívio social. Se podemos dizer que a sociedade sempre fez da hipocrisia um estratagema de convívio, hoje levamos isso ao extremo. Assim como se retirou o cachimbo do Saci-pererê, se tentou retirar Monteiro Lobato das escolas, uma tentativa autoritária e arrogante que julga que professores e alunos não podem, juntos, avaliar e contextualizar uma obra que revela muito do que foi o Brasil do início do século XX. Sonegar informações, censurar e tirar das vistas, é pedagógico para alguns setores da sociedade que desejam, acima de tudo, exercer certa tirania que sempre criticaram. Nada como ter a possibilidade de não informar para exercer o poder. Por outro lado, nos abster de algumas posturas derivadas do “politicamente correto” é abrir o flanco para que discursos preconceituosos racistas possam se reafirmar.

Como se aproveitar desse radicalismo do politicamente correto? Toma-se como exemplo a malandragem de livros como “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, do jornalista da Veja, Leandro Narloch; “Guia politicamente incorreto da História da América Latina”, dos jornalistas Leandro Narloch e Duda Teixeira, ambos da Veja e o último da “saga” do besteirol, “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", de Luiz Fernando Pondé. Os dois primeiros, dedicados a tentar desqualificar a produção historiográfica profissional, carecem de quase tudo em termos metodológicos e de fontes. O último assume uma postura arrogante e ingênua, que se esforça em subverter quase tudo que diz respeito ao pensamento crítico-social. Trata-se de uma série de publicações fraquíssimas que visam um público leigo suscetível a aceitar argumentos de fácil digestão. Pondé chega a insinuar que se afirmar negro, pobre, mulher, índio ou gay, é uma estratégia de vitimização para alcançar “vantagens” sociais. Argumento que, no senso comum, pode ter efeito nefasto. Esses livros acabam por banalizar questões sociais sérias e autorizar, por consequência, que se possa reassumir publicamente um discurso que reafirma o preconceito e a violência simbólica.

2 comentários:

Unknown disse...

Mais uma vez, muito bom, Mozart! Reflexões fundamentais. Como é bom ter isso publicado de forma ampla aqui na região. Faz a diferença em meio a tanta bobajada.

Iuri

Rovian Ramos disse...

Professor, parabéns pelo artigo, excelente!!!

Gostaria se posso publicar o artigo no meu blog sobre cachimbo, claro, mencionando sua autoria.

Caso possível, desde já agradeço.

Um abraço,
Rovian