Universidade e formação crítica

Publicado na Gazeta do Sul dia 30 de junho de 2012



A universidade ainda é o maior e o melhor espaço de construção e difusão do conhecimento no mundo contemporâneo. Mas não se resume a isso, evidentemente. A universidade tem um papel estratégico em relação ao conhecimento, pois o conhecimento não é algo inocente e desinteressado; ao contrário, está implicado na construção dos rumos que a sociedade define e articula politicamente.

É opinião corrente entre os especialistas que o mundo contemporâneo está profundamente marcado pela aceleração dos processos sociais, pela dinamização e ampliação do consumismo, pelo recrudescimento do individualismo e pelo proselitismo da chamada “sociedade de sucesso”. O papel da universidade não pode ser apenas o de legitimação e incremento desse processo. Deve ser propositivo e contribuir efetivamente para o espírito crítico e reflexivo, e é nesse sentido que, quando se fala em formação humanista, a universidade tem a obrigação, para além da formação profissional, de qualificar o pensamento e a responsabilidade social de seus egressos. O que se entende, portanto, por formação crítica ou humanista na Universidade? Em síntese, trata-se de colocar o homem e a sociedade no centro das preocupações e das estratégias de formação profissional de seus alunos. Significa dizer que um profissional deve ter condições de pensar sobre os desdobramentos de seu conhecimento, de suas ações e de suas atividades. Uma formação humanista contribuiu para a percepção de nosso lugar no processo histórico, permite nos situar culturalmente, perceber que a ciência tem consequência política e não é jamais uma atividade desinteressada ou neutra, como queriam os ideólogos da ciência do século XIX. Uma universidade que não está atenta a estas questões deixa de cumprir seu papel social, deixa de ser um espaço de reflexão e análise social, o que, vale dizer, é condição sine qua non para entender seu próprio lugar no mundo.

O mito da neutralidade científica que por séculos desresponsabilizou a ciência (e os cientistas, bem entendido) de suas implicações sociais foi paulatinamente desacreditado, sobretudo no século XX, o século da eugenia, do holocausto nazista, dos gulags soviéticos, dos campos de limpeza étnica de Srebrenica, de Guantánamo e Abu Ghraib, exemplos da barbárie científica e tecnológica de um passado recente. A ideia de que possa existir um cientista num laboratório, fora do mundo, apartado da sociedade, não sobrevive a simples reflexão sobre o papel do conhecimento científico nas transformações da vida social. Uma revolução científica está relacionada também às mudanças sociais. Dito de outra maneira, o conhecimento científico só pode ser mensurado quando nos damos conta da dimensão do poder que ele comporta. Não há saber que não esteja implicado com o poder, essa dissociação por si só já é uma estratégia de desresponsabilização. À universidade cabe a criação de espaços para tencionar esse poder.


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