Getúlio Vargas (parte II)

Publicado na Gazeta do Sul em 25 de agosto de 2012



A era Vargas é comumente caracterizada por quatro períodos que, didaticamente, nos ajudam a entender o percurso de Getúlio no poder, entre 1930, ano do golpe que o levou ao Catete, e 24 de agosto de 1954, quando cometeu suicídio. Destaquemos alguns acontecimentos desses períodos. Entre a “Revolução de 1930” e a promulgação da Constituição de 1934, tem-se o período do governo provisório, cujo evento mais significativo foi, certamente, a Revolução Constitucionalista, ocorrida em 1932, orquestrada por São Paulo contra o governo central. Os revoltosos exigiam a promulgação de uma constituição, conforme promessa de Getúlio quando assumiu a presidência, em 1930. Vargas derrotou os paulistas, mas cedeu à reivindicação e, em 1934, promulgou a Carta Magna que trazia como novidade o voto feminino. De 1934 a 1937 tem-se o chamado período constitucional. Dois fatos podem ser destacados: a Intentona Comunista, de 1935, e o Plano Cohen, de 1937. A Intentona, ou insurreição comunista, fora liderada por Luís Carlos Prestes e Olga Benário, ambos presos depois de desmantelada a tentativa revolucionária. O evento acabou servindo de pretexto para Getúlio governar em Estado de Exceção. Em 1937, foi divulgado pelo programa radiofônico a “Hora do Brasil”, que o governo havia descoberto um plano para derrubar o presidente e levar adiante uma revolução comunista no país, o chamado Plano Cohen. O Plano foi, na realidade, um documento criado pelo integralista Olímpio Mourão Filho e utilizado pelo Chefe do Estado Maior Góis Monteiro para justificar, frente à população, um novo golpe de Estado. No mesmo ano é aprovado Estado de Guerra e, em 10 de novembro, o Congresso fora fechado. Getúlio anunciou uma nova Constituição, de inspiração fascista, a chamada Polaca e tornou-se o ditador do chamado Estado Novo.

Através do Departamento de imprensa e propaganda (DIP), instituiu-se a censura aos meios de comunicação e teve início uma campanha oficial para o culto à imagem de Getúlio. No plano econômico, Getúlio deu andamento a seu projeto nacionalista e trabalhista. Em 1943 foi instituída a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT. Os sindicatos foram domesticados e, a partir de uma política intervencionista, Vargas mediou as relações de trabalho, beneficiando, sobretudo, os setores industriais. Tratava-se de disciplinar o operariado para a industrialização. Vargas enfrentou o período da II Guerra e ao lado dos EUA, depois de um longo período de aproximação com a Alemanha, lutou contra o nazi-fascismo e o nacionalismo. Ironias a parte, lutava contra tendências que, em parte, estavam presentes em seu governo. Em 1945, não resistindo às pressões, inclusive do Exército, foi derrubado. Retornaria em 1951, pelo voto direto, inaugurando a fase democrática de sua trajetória. A volta ao nacionalismo já não tinha espaço no cenário internacional e, em 1954, cerceado pela oposição, “saiu da vida para entrar na História”.

 

Vargas e a cultura política (I)

Publicado na Gazeta do Sul dia 17 de agosto de 2012




Agosto é considerado, tradicionalmente, um mês agourento e, para nós, brasileiros, tem ainda um significado a mais, o fato político do suicídio, em 24 de agosto de 1954, de Getúlio Vargas, o estadista mais polêmico, paradoxal e enigmático da História brasileira. Hibrido de populista, ditador e democrata, Getúlio transitou por inúmeras posturas e atividades políticas: foi Promotor Público na comarca de Porto Alegre (1908), falsificador de atas eleitorais no governo de Borges de Medeiros (na eleição de 1923), Deputado Estadual (1909-1924) e Federal (1924-1926), Ministro da Fazenda do governo Washington Luís (1926-1927), Governador (Presidente, na época) do Rio Grande do Sul (1928) e golpista em 1930, depois de uma rasteira política em Washington Luís, pondo fim a República Velha (1889-1930). Do ponto de vista ideológico, Vargas foi agnóstico, em que pese suas articulações com a Igreja Católica quando presidente, positivista e castilhista, postura que de certo modo abandonou depois que assumiu o poder central do país, flertou com o fascismo italiano, foi ditador e, a partir da Segunda Guerra Mundial, democrata, sendo eleito Presidente em 1951 pelo voto popular.

Foi o Estadista que mais tempo se manteve no poder na era republicana, de 1930 a 1945 e 1951 a 1954. Odiado ou amado, é um político que sempre despertou/desperta sentimentos extremados, o que fez/faz dele objeto de culto para uns e demonização para outros. Foi o primeiro político brasileiro a fazer uso moderno da imagem e do poder plebiscitário. Lidou como ninguém com as “massas” e fez escola política inaugurando uma postura populista presente ainda hoje no país. Durante o Estado Novo, Vargas, seguindo os exemplos de países fascistas europeus como a Itália e a Alemanha,  potencializou seu poder plebiscitário a partir da construção de uma imagem personalista e carismática. Monumentalizou o culto à sua imagem, como fica evidente nas manifestações que ocorriam no estádio de futebol São Januário, quando Getúlio franqueava os ingressos e aproveitava a ocasião para um longo discurso. Nesses eventos, mobilizava escolas para desfiles em sua homenagem, enquanto estudantes ovacionavam-no e ostentavam cartazes com suas fotos.

Para sagrar seu personagem de político popular, Vargas, no contexto da ditadura do Estado Novo, instituiu o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que tinha por missão difundir sua imagem, inclusive com a distribuição de material didático nas escolas, onde sua biografia era apresentada apologeticamente. Quadros com sua fotografia eram distribuídos à população e facilmente encontrados em oratórios ao lado de figuras como a de São Jorge. O “pai dos pobres” consolidava a mística personalista do poder no Brasil. Mística que faz com que até hoje os brasileiros optem por votar em pessoas e não em ideias ou ideologias políticas. Getúlio contribuiu decisivamente para essa cultura política personalista e populista no Brasil.

História e ufanismo cultural

Publicado na Gazeta do Sul dia 11/08/2012




É impressionante como volta e meia nos deparamos com discursos ufanistas, passadistas e até mesmo reacionários sobre a cultura e a história. Não bastassem as datas comemorativas da “pátria”, geralmente lapidadas pela sacralidade do relicário nacional, ainda temos as manifestações de “intelectuais orgânicos”, de entidades, de opinadores e de mal informados dedicados ao velho discurso ramerrão do autoelogio identitário, do apanágio da etnicidade e, não raras vezes, do proselitismo comunitarista. O que é mais danoso nessas manifestações essencialistas da cultura, nesse ufanismo acrítico, é a sustentação desses discursos numa referida autoridade do conhecimento histórico.

O autoelogio histórico-cultural, uma visão ufanista da História, comumente propagada aos quatro ventos, não atenta apenas contra a própria História, que facilmente desmontaria tais discursos, mas atenta contra o bom senso e o espírito crítico que são necessários para o exercício da própria cidadania. Não é pelo engodo ou pela farsa que faremos de nossa “cultura” ou de nossa “História” algo mais nobre. Este é o exercício da hipocrisia. Não há tanta nobreza na História assim!

O discurso nostálgico sobre o passado, como se tivéssemos perdido alguma coisa por lá e, hoje, deveríamos nos dedicar a recuperação dessas perdas, é o sintoma do ressentimento com que percebemos a cultura contemporânea. O desdobramento disso é a necessidade de cultuar o passado, de viver para o passado, conferir a ele um nível moral e ético que efetivamente julgamos perdidos no presente, um presente que acaba tendo sentido somente por se voltar para trás. Ora, o ufanismo ingênuo, quando não mal intencionado, tende ao reacionarismo, ao conservadorismo e ao passadismo. Daí a recorrência de expressões como “resgate” e “cultivo” da história, da tradição ou da cultura. É preciso reagir contra todas as formas de ufanismo histórico-cultural. É preciso superar essa postura conservadora, essa nostalgia tola e esse ressentimento frente ao presente, por uma atitude reativa. É preciso inventar linhas de fuga para escapar à ordem dos mortos.

O papel da História nesse imbróglio todo é evidente: reagir contra esses discursos, defender a crítica e desconfiar sempre dessas narrativas edificantes. À História cabe a desconstrução dessas zonas de conforto oferecidas por um passado idealizado. Cabe à História a desconstrução da farsa, das estratégias que movem certo ufanismo imobilizador. É preciso entender que a História é uma construção do presente, que ela não está inerte no passado, parada, esperando ser “resgatada” por alguém, no caso, o historiador. Ao historiador, posicionado num tempo e espaço específicos, cabe a construção do passado. Somos mais autores do passado do que constituídos por ele, daí a necessidade urgente de reagir contra os discursos ufanistas e nos responsabilizarmos efetivamente frente ao presente. 

As Olimpíadas e os jogos políticos

Publicado na Gazeta do Sul em 04 de agosto de 2012



A adoração aos deuses na Grécia Antiga tinha um aspecto que para nós, hoje, é de difícil compreensão. Os deuses, mesmo considerando sua sacralidade, possuíam virtudes e defeitos, como os homens. Contudo, isso levou a uma adoração que considerava as estratégias políticas dos próprios deuses que faziam da vida dos homens um jogo de disputa de poder, cujo destino estava condicionado. Os atletas representavam os próprios deuses no imaginário grego, daí que o culto ao esporte e às disputas onde se podia demonstrar a bravura, a honra, a virtude e a coragem eram importantes na constituição social dos helenos.

A partir do século VIII a.C., mais especificamente em 776 a.C, ocorria a primeira competição esportiva na cidade de Olímpia, com a participação  de atletas de várias cidades-estados da Grécia. Boxe, corrida, salto a distância, arremesso de dardos, de discos e atletismo constituíam as modalidades esportivas. Com os jogos, os gregos não só simulavam a adoração aos “deuses”, representados pelos atletas que disputavam os jogos, mas mantinham uma estratégia de pacificação e harmonia entre as cidades-estado. As Olimpíadas eram, portanto, um motivo de religiosidade e de manutenção da paz entre os gregos. No final do séc. IV d.C., no entanto, com a ascensão do imperador romano Teodósio I, já convertido ao cristianismo, os jogos foram proibidos, pois foram considerados manifestação politeísta, o que ia de encontro ao monoteísmo cristão.

Em 1896, em plena época do imperialismo europeu, por iniciativa do francês barão de Coubertin, os jogos foram restaurados. Naquele ano, 13 países e quase 300 atletas participaram, em Atenas, da primeira Olimpíada da era moderna. Jamais os jogos perderam o caráter político. Em 1916, 1940 e 1944 os jogos sucumbiram a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, Hitler se recusou a assistir à premiação de um atleta negro dos EUA, ganhador de quatro medalhas de ouro. Em Munique, no ano de 1972, o evento foi marcado pelo atentado palestino a delegação israelense, matando 11 atletas. Em 1980 os EUA boicotaram os jogos de Moscou e, na edição seguinte, foram os russos que não compareceram a Los Angeles.

Durante toda a Guerra Fria, as Olimpíadas foram utilizadas como disputa simbólica do poder entre as potências capitalistas e comunistas. Verdadeiras estratégias de guerra se constituíram. Vencer uma modalidade era uma demonstração política de superioridade. Atletas eram submetidos a regimes de treinamentos extremos, invasivos e violentos. Era uma questão de superioridade dos regimes que estava em “jogo”.

Com o fim da Guerra Fria, a partir de 1989, as Olimpíadas perderam muito de seu glamour, e os investimentos, da mesma forma, não eram mais estratégicos. Os jogos disputados pelo poder político perderam o sentido. O glamour dos jogos olímpicos sucumbiu à inexpressão política das competições.