As Olimpíadas e os jogos políticos

Publicado na Gazeta do Sul em 04 de agosto de 2012



A adoração aos deuses na Grécia Antiga tinha um aspecto que para nós, hoje, é de difícil compreensão. Os deuses, mesmo considerando sua sacralidade, possuíam virtudes e defeitos, como os homens. Contudo, isso levou a uma adoração que considerava as estratégias políticas dos próprios deuses que faziam da vida dos homens um jogo de disputa de poder, cujo destino estava condicionado. Os atletas representavam os próprios deuses no imaginário grego, daí que o culto ao esporte e às disputas onde se podia demonstrar a bravura, a honra, a virtude e a coragem eram importantes na constituição social dos helenos.

A partir do século VIII a.C., mais especificamente em 776 a.C, ocorria a primeira competição esportiva na cidade de Olímpia, com a participação  de atletas de várias cidades-estados da Grécia. Boxe, corrida, salto a distância, arremesso de dardos, de discos e atletismo constituíam as modalidades esportivas. Com os jogos, os gregos não só simulavam a adoração aos “deuses”, representados pelos atletas que disputavam os jogos, mas mantinham uma estratégia de pacificação e harmonia entre as cidades-estado. As Olimpíadas eram, portanto, um motivo de religiosidade e de manutenção da paz entre os gregos. No final do séc. IV d.C., no entanto, com a ascensão do imperador romano Teodósio I, já convertido ao cristianismo, os jogos foram proibidos, pois foram considerados manifestação politeísta, o que ia de encontro ao monoteísmo cristão.

Em 1896, em plena época do imperialismo europeu, por iniciativa do francês barão de Coubertin, os jogos foram restaurados. Naquele ano, 13 países e quase 300 atletas participaram, em Atenas, da primeira Olimpíada da era moderna. Jamais os jogos perderam o caráter político. Em 1916, 1940 e 1944 os jogos sucumbiram a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, Hitler se recusou a assistir à premiação de um atleta negro dos EUA, ganhador de quatro medalhas de ouro. Em Munique, no ano de 1972, o evento foi marcado pelo atentado palestino a delegação israelense, matando 11 atletas. Em 1980 os EUA boicotaram os jogos de Moscou e, na edição seguinte, foram os russos que não compareceram a Los Angeles.

Durante toda a Guerra Fria, as Olimpíadas foram utilizadas como disputa simbólica do poder entre as potências capitalistas e comunistas. Verdadeiras estratégias de guerra se constituíram. Vencer uma modalidade era uma demonstração política de superioridade. Atletas eram submetidos a regimes de treinamentos extremos, invasivos e violentos. Era uma questão de superioridade dos regimes que estava em “jogo”.

Com o fim da Guerra Fria, a partir de 1989, as Olimpíadas perderam muito de seu glamour, e os investimentos, da mesma forma, não eram mais estratégicos. Os jogos disputados pelo poder político perderam o sentido. O glamour dos jogos olímpicos sucumbiu à inexpressão política das competições.

Um comentário:

Luh Ciecelski disse...

O tempo passa e os gregos continuam a nos influenciar, mesmo que as tradições percam seus sentidos originais, não é mesmo?