História e ufanismo cultural

Publicado na Gazeta do Sul dia 11/08/2012




É impressionante como volta e meia nos deparamos com discursos ufanistas, passadistas e até mesmo reacionários sobre a cultura e a história. Não bastassem as datas comemorativas da “pátria”, geralmente lapidadas pela sacralidade do relicário nacional, ainda temos as manifestações de “intelectuais orgânicos”, de entidades, de opinadores e de mal informados dedicados ao velho discurso ramerrão do autoelogio identitário, do apanágio da etnicidade e, não raras vezes, do proselitismo comunitarista. O que é mais danoso nessas manifestações essencialistas da cultura, nesse ufanismo acrítico, é a sustentação desses discursos numa referida autoridade do conhecimento histórico.

O autoelogio histórico-cultural, uma visão ufanista da História, comumente propagada aos quatro ventos, não atenta apenas contra a própria História, que facilmente desmontaria tais discursos, mas atenta contra o bom senso e o espírito crítico que são necessários para o exercício da própria cidadania. Não é pelo engodo ou pela farsa que faremos de nossa “cultura” ou de nossa “História” algo mais nobre. Este é o exercício da hipocrisia. Não há tanta nobreza na História assim!

O discurso nostálgico sobre o passado, como se tivéssemos perdido alguma coisa por lá e, hoje, deveríamos nos dedicar a recuperação dessas perdas, é o sintoma do ressentimento com que percebemos a cultura contemporânea. O desdobramento disso é a necessidade de cultuar o passado, de viver para o passado, conferir a ele um nível moral e ético que efetivamente julgamos perdidos no presente, um presente que acaba tendo sentido somente por se voltar para trás. Ora, o ufanismo ingênuo, quando não mal intencionado, tende ao reacionarismo, ao conservadorismo e ao passadismo. Daí a recorrência de expressões como “resgate” e “cultivo” da história, da tradição ou da cultura. É preciso reagir contra todas as formas de ufanismo histórico-cultural. É preciso superar essa postura conservadora, essa nostalgia tola e esse ressentimento frente ao presente, por uma atitude reativa. É preciso inventar linhas de fuga para escapar à ordem dos mortos.

O papel da História nesse imbróglio todo é evidente: reagir contra esses discursos, defender a crítica e desconfiar sempre dessas narrativas edificantes. À História cabe a desconstrução dessas zonas de conforto oferecidas por um passado idealizado. Cabe à História a desconstrução da farsa, das estratégias que movem certo ufanismo imobilizador. É preciso entender que a História é uma construção do presente, que ela não está inerte no passado, parada, esperando ser “resgatada” por alguém, no caso, o historiador. Ao historiador, posicionado num tempo e espaço específicos, cabe a construção do passado. Somos mais autores do passado do que constituídos por ele, daí a necessidade urgente de reagir contra os discursos ufanistas e nos responsabilizarmos efetivamente frente ao presente. 

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