Vargas e a cultura política (I)

Publicado na Gazeta do Sul dia 17 de agosto de 2012




Agosto é considerado, tradicionalmente, um mês agourento e, para nós, brasileiros, tem ainda um significado a mais, o fato político do suicídio, em 24 de agosto de 1954, de Getúlio Vargas, o estadista mais polêmico, paradoxal e enigmático da História brasileira. Hibrido de populista, ditador e democrata, Getúlio transitou por inúmeras posturas e atividades políticas: foi Promotor Público na comarca de Porto Alegre (1908), falsificador de atas eleitorais no governo de Borges de Medeiros (na eleição de 1923), Deputado Estadual (1909-1924) e Federal (1924-1926), Ministro da Fazenda do governo Washington Luís (1926-1927), Governador (Presidente, na época) do Rio Grande do Sul (1928) e golpista em 1930, depois de uma rasteira política em Washington Luís, pondo fim a República Velha (1889-1930). Do ponto de vista ideológico, Vargas foi agnóstico, em que pese suas articulações com a Igreja Católica quando presidente, positivista e castilhista, postura que de certo modo abandonou depois que assumiu o poder central do país, flertou com o fascismo italiano, foi ditador e, a partir da Segunda Guerra Mundial, democrata, sendo eleito Presidente em 1951 pelo voto popular.

Foi o Estadista que mais tempo se manteve no poder na era republicana, de 1930 a 1945 e 1951 a 1954. Odiado ou amado, é um político que sempre despertou/desperta sentimentos extremados, o que fez/faz dele objeto de culto para uns e demonização para outros. Foi o primeiro político brasileiro a fazer uso moderno da imagem e do poder plebiscitário. Lidou como ninguém com as “massas” e fez escola política inaugurando uma postura populista presente ainda hoje no país. Durante o Estado Novo, Vargas, seguindo os exemplos de países fascistas europeus como a Itália e a Alemanha,  potencializou seu poder plebiscitário a partir da construção de uma imagem personalista e carismática. Monumentalizou o culto à sua imagem, como fica evidente nas manifestações que ocorriam no estádio de futebol São Januário, quando Getúlio franqueava os ingressos e aproveitava a ocasião para um longo discurso. Nesses eventos, mobilizava escolas para desfiles em sua homenagem, enquanto estudantes ovacionavam-no e ostentavam cartazes com suas fotos.

Para sagrar seu personagem de político popular, Vargas, no contexto da ditadura do Estado Novo, instituiu o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que tinha por missão difundir sua imagem, inclusive com a distribuição de material didático nas escolas, onde sua biografia era apresentada apologeticamente. Quadros com sua fotografia eram distribuídos à população e facilmente encontrados em oratórios ao lado de figuras como a de São Jorge. O “pai dos pobres” consolidava a mística personalista do poder no Brasil. Mística que faz com que até hoje os brasileiros optem por votar em pessoas e não em ideias ou ideologias políticas. Getúlio contribuiu decisivamente para essa cultura política personalista e populista no Brasil.

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