Em defesa de identidades?

Publicado em 15 de setembro de 2012 na Gazeta do Sul



O sociólogo polonês Zigmunt Bauman nos ensina que quando precisamos sair em defesa de identidades, sobretudo culturais/étnicas, é porque elas deixaram de ser evidentes por si e não fazem muito sentido para nos posicionar no mundo. Diz ele que “quanto mais frágeis [as identidades] parecem, mais forte é o impulso de descobrir ou inventar seus alicerces e, sobretudo, de demonstrar sua solidez”. Quando se precisa refletir sobre as identidades é porque elas se transformaram numa tarefa e, como tal, necessitam ser exercidas com uma consciência que, de fato, jamais é necessária quando as identidades fazem sentido para a vida. Assistimos, nas últimas décadas, um movimento reivindicatório de identidades culturais/étnicas em nome da resistência à homogeneização do mundo global.

Essa obsessão em defender identidades parece ser o sintoma de um mundo onde as antigas identidades nacionais foram descentradas, subjugadas pelos movimentos migrantistas e diaspóricos do pós-guerra. Luta-se pelo direito à diferença, mas o que implicitamente está posto neste “movimento de resistência” é um discurso diferencialista que reivindica a pureza identitária e sua proteção. O problema desses soldados do comunitarismo étnico é que, ao saírem em defesa de supostas etnicidades, acabam naturalizando a cultura e reafirmando fronteiras identitárias. Na realidade, se aceita, a partir de uma política da “tolerância”, o convívio com as diferenças em mesmo território, mas com as fronteiras identitárias muito bem estabelecidas entre o mundo do “Nós”, os iguais, e o dos “Outros”, os diferentes. Não se consegue, com essa postura, um avanço no sentido da interculturalidade ou mesmo da transculturalidade: o limite é o multicultural. O hilário disso tudo é que geralmente a defesa de uma suposta pureza cultural a ser “preservada” se dá em nome da reação à homogeneização cultural. Viver sob uma identidade cultural preservada não é viver a mesmice, entre “iguais” imaginários? Não se trata da reificação do homogêneo? Essa postura defensiva, timbrada pelos resíduos de uma Antropologia Ortodoxa, pensa a cultura, segundo Bauman, “como um sistema coerente de pressões apoiadas por sanções, valores e normas interiorizados, e hábitos que asseguram a repetitividade da conduta no plano individual [conservadorismo] e a monotonia da reprodução, da continuidade no decorrer do tempo, da preservação da tradição no plano da coletividade [naturalização da cultura]”. Permitir que as diferenças existam, e que sejam toleradas, ainda é uma atitude autoritária que reafirma uma organização hierárquica da pluralidade cultural. Urge superar as posturas multiculturalistas conservadoras. É preciso perceber que as culturas são sempre hibridas, negociáveis, mutáveis, dinâmicas e performáticas. No mundo das diásporas culturais, a defesa de purezas identitárias se tornou uma retórica que, em nome da diversidade, reivindica o “Uno”.

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