Usos e abusos da História

Publicado na Gazeta do Sul dia 22 de setembro de 2012


Temos, ainda, uma visão histórica limitadíssima, resultado, entre outras coisas, do perigo que a História representou em alguns cenários políticos que vivemos no Brasil. A censura, amputação curricular, vigilância ideológica, redução de carga horária nas escolas e formação deficitária de professores são algumas das estratégias utilizadas para desconstruir, entre nós, o importante papel social da História. Como vivemos num país que passou grande parte de sua história republicana em Estado de Exceção, podemos imaginar o quanto a educação, e a História em particular, foram afetadas negativamente. Em todos estes contextos, como a ditadura Vargas e a ditadura militar, as alterações curriculares foram notáveis e a História foi um dos alvos estratégicos de desconstrução da memória e do espírito crítico. Na época do Estado Novo, por exemplo, a escravidão praticamente desapareceu dos manuais escolares, e as lutas sociais, da mesma forma, foram banidas, legitimando o mito da tradição pacífica e acomodada dos brasileiros. No período da ditadura militar, a História foi transformada em anedotário nacional. Uma geração inteira foi vitimada por aulas baseadas em trajetórias de “personagens ilustres”, os chamados heróis da pátria, linhas de tempo e cronologias enormes e sem sentido, recheadas de “fatos memoráveis” e datas para decorar. Vitimamos uma geração com uma História didática baseada num positivismo primitivo, num culto ao passado como se dele pudéssemos tirar alguma lição ou moral para o presente. Uma História que ratificava a máxima comtiana que dizia que “os vivos seriam cada vez mais governados pelos mortos”. Uma História Magistra Vitae (mestra da vida) e moralista, que fazia do passado um panteão de heróis e mártires que deveriam servir de exemplos a serem seguidos. Ora, essa História personalista, cheia de heróis, datas e fatos foi justamente a História sem propósitos, acrítica, ingênua, perfeita para a morte do pensamento e da memória.

Hoje ainda estamos presos a cultos ingênuos do passado, a práticas comemorativas tolas, apologéticas e românticas. Inventamos e cultuamos heróis e eventos históricos que não se sustentam frente a mais superficial das pesquisas. Transformamos revoluções sangrentas, elitistas e fratricidas em memoráveis eventos históricos, guerras perdidas em marcos identitários e, o que é mais trágico, consideramos esses “mitos” como “verdades” históricas a serem lembradas e cultuadas. Usamos e abusamos da História como se ela pudesse legitimar nossos discursos ufanistas. Pela repetição, tentamos transformar falsidades históricas em verdades irrefutáveis. Mentimos nas escolas quando ensinamos uma “História” fantasiosa e inverídica. Mentimos quando reverenciamos heróis que jamais existiram ou justificaram o epiteto. Tragicamente, continuamos a inibir o pensamento e a inteligência social. O culto ao passado, na realidade, é o ritual de nossa decadência civilizatória.

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