HIstória para não pensar

Publicado na Gazeta do Sul, dia 14 de outubro de 2012


Quando paramos um pouco para pensar sobre a História que era ensinada nas escolas de nosso país, começamos a entender porque tínhamos uma postura tão pouco reflexiva sobre os acontecimentos que formavam nossa sociedade. Diria que não faz muito tempo era ensinada uma História conservadora e profundamente oficialesca, baseada no conhecimento de datas, personagens, grandes fatos e feitos e, claro, heróis, muitos heróis. Parecia que estávamos num país abarrotado de gente ilustre, de modelos de comportamento, homens moralmente superiores (sim, homens, a história era masculina), enfim, “heróis”, no sentido em que estes tipos deveriam servir de inspiração para uma educação moralizante e personalista, pouco reflexiva e, sobretudo, nada criativa. Efetivamente era uma História vazia de sentido, sem graça e pouco convidativa, o que, vale notar, acabava por contribuir para a formação de “cidadãos” desinformados, acríticos e de memória precarizada. Aprendemos a não aprender sobre a História de nosso país. Aprendemos que isso não tem importância, que podemos viver sem conhecimento histórico, que o presente nos basta por si. Que podemos viver sem saber como nos tornamos o que somos. Que podemos viver num território que não conhecemos como foi constituído historicamente e, ainda, que podemos viver sem refletir sobre os preconceitos e desigualdades sociais. É assim que o preconceito, o racismo, as estereotipias, a despolitização, o extremado individualismo passavam ilesos pelo currículo escolar. É assim que se constituía uma zona morta na formação educacional. Naquele tempo, por exemplo, achávamos que não havia racismo no Brasil, pois nos ensinavam que vivíamos numa democracia racial. Mal sabíamos reconhecer a diversidade das culturas indígenas de nossa região, quiçá do país. Não sabíamos, por exemplo, que já existia, no país, uma política de ação afirmativa, como é o caso da chamada Lei do Boi (Lei nº 5.465/ 1968), que reservava 50% das vagas nas escolas agrícolas de ensino médio ou superior (agronomia ou veterinária), mantidas pela União, a agricultores ou filhos destes, geralmente brancos, evidentemente. Essas coisas não afetavam nossa reflexão sobre a sociedade, ao contrário, elevávamos nossos preconceitos à condição de teses e debatíamos orgulhosamente sobre as questões sociais.

A História que aprendíamos nos ensinava que eram as pessoas que faziam a História, ignorávamos os contextos e as estruturas sociais, nos entorpecíamos com os “heróis”. Ignorávamos, ainda, as grandes teorias e ideologias políticas. Aprendemos a votar, orgulhosamente, em pessoas. Ignorávamos os partidos e nem sabíamos muito bem quantos eram ou o que os diferenciavam. Sabemos, hoje, que o ensino da História é reflexivo e nos ajuda a pensar sobre as coisas que estão aí, a nossa volta, a entender nosso lugar no mundo, a entender porque somos o que somos.

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