Monteiro Lobato e a Eugenia

Publicado na Gazeta do Sul, dia 29 de setembro de 2012



Monteiro Lobato volta aos noticiários por conta do STF que, no dia 25 de setembro, deu continuidade às discussões sobre o futuro de sua obra para a educação brasileira, no caso, se impede ou não a adoção do livro Caçadas de Pedrinho (1933) pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola. A discussão é complexa e implica em decisões que certamente terão desdobramentos e abrirão precedentes. Por um lado diz-se que o racismo da obra de Lobato é evidente e não poderia ser objeto de formação pedagógica nas escolas do país, pois, de alguma maneira, influenciaria negativamente na formação dos jovens leitores brasileiros. Por outro lado, muitos afirmam que a censura é um caminho autoritário e seria importante que obras dessa natureza fossem, sim, utilizadas nas escolas justamente para construir um espírito crítico sobre a história do racismo no Brasil. Porém, argumenta-se, ainda, que os professores não estariam preparados para essa tarefa e que a adoção das obras de Lobato poderiam mais afirmar uma postura racista do que, de fato, refutá-la. Opiniões a parte, me interessa aqui discutir o racismo de Lobato, entender o autor no contexto em que viveu, pois, como sabemos, do ponto de vista histórico não se deve julgar o passado com os valores do presente, isso seria anacronismo e considerado erro grosseiro. Os que defendem Lobato, não raras vezes, utilizam esse argumento para amenizar o impacto das posturas do autor. Mas, de fato, como podemos avaliar a postura de Lobato considerando o contexto em que escreveu sua obra, sobretudo Caçadas de Pedrinho, objeto da contenda? Monteiro Lobato escreveu seus principais textos entre os anos 1920 e 1950, período transitório entre uma visão racialista, de caráter pseudocientífico, que julgava que não só as raças humanas existiam como podiam ser hierarquizadas entre inferiores (negros) e superiores (brancos), e uma visão não-racialista, de caráter culturalista, que refutava e desacreditava o racismo. Portanto, Monteiro Lobato viveu num período de transformações do pensamento social/“racial”, o que não podemos perder de vista, pois, é preciso dizer, não faltavam opções teóricas para se desvencilhar de uma visão racista de mundo. Se tínhamos autores racistas como os eugenista Renato Kehl e Oliveira Vianna, tínhamos também intelectuais como Manuel Bomfim, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda que já refutavam o racialismo e eram autores importantes na época. Só para dar um exemplo, Lobato publicou “Caçadas de Pedrinho” no mesmo ano da publicação da obra máxima de Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, que, em que pese as críticas que poderíamos apontar, refutava as interpretações racistas da sociedade brasileira. Pensar que na época de Lobato o racismo era uma postura generalizada e, portanto, deveríamos relevar o racismo de autores como Lobato, não se sustenta. A época de Lobato era, também, a época em que o racismo foi posto em cheque. Ele tinha opções.

 

Nenhum comentário: