Sociedade, Consumo e Lixo

Publicado na Gazeta do Sul, dia 27-10-2012


Vivemos numa sociedade infantilizada, encantada com sua capacidade de desejar e satisfazer seus desejos imediatamente, ou seja, uma sociedade que, impulsionada pelo crédito, não precisa esperar, que renova incessantemente seus desejos. Não é sem sentido que reificamos a figura dos catadores no mundo atual, são eles que retiram de nossa frente a montanha dos nossos desejos de ontem para possibilitar novas demandas, mais atualizadas e, sempre, urgentes. A expansão do crédito é, para usar a metáfora de Zigmunt Bauman, a expansão do lixo e, com ele, o problema do descarte. Se acumulamos alguma coisa na sociedade de hiperconsumo, como a nossa, é o lixo, o descarte diário. Não suportaríamos conviver com esses resíduos de nosso consumo. É preciso organizar a coleta, a remoção e a invisibilidade desse ônus.

A sociedade de consumo é uma sociedade obcecada pelo prazer, pelo aqui e agora. Não se percebe, com esse entorpecimento, que acabamos por tornar rarefeita toda uma série de valores e vínculos sociais. Assim, acabamos por descartar, obsequiosamente, os próprios valores e vínculos sociais. Viver com valores é assumir algumas posturas duráveis, o suficiente, que seja, para dar sentido à vida social. Ora, na sociedade do consumo, do imediato e do hedonismo, pouca coisa sobrevive à urgência do tempo, à aceleração devastadora dos processos sociais. O trabalho, que outrora era para a vida toda, hoje é uma conquista diária. As relações afetivas, que outrora reclamavam a responsabilização pelo outro, hoje são substituídas pela frugalidade, são intensas e rápidas, sem comprometimentos. O conhecimento e a educação, que foram importantíssimos param nos colocar no mundo do trabalho, hoje são considerados como mercadorias norteadas pela mesma lógica dos prazos de validade. A educação, se não for permanente, é sempre insuficiente. Os indivíduos são, também, as mercadorias do mundo do conhecimento. É imprescindível estar à venda, ser proativo, com autoestima calibrada e, sobretudo, ser flexível. Como nos alerta Bauman, a flexibilidade é a palavra de ordem no mundo contemporâneo. O que significa, de fato? Significa que não podemos manter condutas, posturas, ideias e valores consolidados. Que temos que saber dançar conforme a música, ter a capacidade, não raro, da frouxidão do caráter. É preciso dizer o que não se pensa, cultivar a hipocrisia como estratégia, aparentar o que o olhar do outro deseja de nós. O mundo do trabalho na sociedade de hiperconsumo é rarefeito, é instável e, vale notar, imprevisível. O que permite que essas forças do imediatismo conduzam a dinâmica social é o crédito. É o crédito que educou a sociedade de consumo a satisfazer seus desejos imediatamente. O desejo e sua satisfação antes da responsabilidade. Um mundo de devedores é o que se traduz como lucro no mundo neoliberal. Ser um devedor é estar sintonizado num mundo cada vez mais atualizado.

 

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