Sociedade Educativa e Homo Discenti

Publicado na Coluna "História & Cotidiano da Gazeta do Sul, dia 21-10-12



Segundo alguns estudiosos da História da Educação, até meados do século XX, nas franjas do que se chama hoje de neoliberalismo, a educação, ou a instrução pública, era uma função do Estado. O Estado Educador tomava pra si a responsabilidade de educar a sociedade, oferecer e até obrigar que os indivíduos se educassem, adquirissem, a partir de uma formação geral, os conhecimentos necessários para se habilitar a viver numa economia competitiva. Essa era a condição da equidade social para uma competitividade mais justa, pelo menos isso é o que rezava a cartilha do Estado Educador. O que se observa a partir da segunda metade do século XX é uma transformação profunda das relações entre educação e sociedade. Trata-se da passagem da obrigação de Estado para a responsabilização individual. É o contexto do surgimento do homo discentis (homem aprendiz permanente), da sociedade da formação continuada, em que o indivíduo precisa estar sempre em processo de aprendizagem. A educação, no mundo neoliberal, é uma educação vitalícia, que precisa durar a vida inteira, e isso porque temos hoje uma forma de organização social inteiramente permeada pela dinâmica do mercado. O desdobramento disso é que o indivíduo deve se constituir com a mesma forma característica do mercado, ou seja, dinâmico, inovador, aberto a mudanças incessantes e a instabilidades. No relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (1996), apresentado à UNESCO, consta, segundo o pesquisador Carlos Ernesto Nogueira-Ramírez, que na sociedade do século XXI o ensino não pode mais ser considerado um todo definitivo, recebido antes da fase adulta da pessoa para depois, sim, ela ingressar no mercado de trabalho. No século XXI, o estudo deve ser flexível e durar toda a vida, pois na era neoliberal o recurso econômico básico é o conhecimento. Eis que estamos frente à sociedade educativa, uma sociedade inteiramente pedagogizada, em que a educação não deve depender exclusivamente das escolas, mas se instituir em todo tecido social, como nas empresas, nas entidades e nas organizações governamentais ou não. Trata-se de uma sociedade da aprendizagem continuada, do indivíduo aprendiz permanente. As implicações dessa transformação da sociedade do Estado Educador para uma Sociedade Educativa é a forma como ela (hiper)responsabiliza o indivíduo por sua instrução vitalícia. O indivíduo é transformado num empreendedor de si, responsável por sua educação de acordo com as demandas de um mercado cada vez mais ágil e exigente. A educação passa a ser uma forma de gestão da vida profissional, uma forma de regulação da vida, condição de permanência no jogo do mercado. A educação, como outras mercadorias, tem prazo de validade e precisa ser constantemente renovada, transformada, especializada e sempre pronta a ser novamente reinventada. O indivíduo de nosso tempo pode, a qualquer momento, ficar obsoleto, descartado como redundante.

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