Dia da Consciência Negra: um debate necessário

Publicado em 24-11-12 na Gazeta do Sul


Desde 2003 se comemora no Brasil o dia 20 de novembro como sendo o dia da Consciência Negra. Em 2011 a Presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que oficializou a data no calendário nacional, reconhecendo como marco desta a morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida no ano de 1695. Zumbi é considerado, a partir de então, um mártir que lutou contra a escravidão no país, símbolo de resistência e liberdade. Em que pese às várias versões sobre a História do Quilombo dos Palmares e, inclusive, sobre a biografia de Zumbi, considerado o líder maior do quilombo, o certo é que a data do 20 de novembro nos interpela a pensar sobre as relações “raciais” no país. Nos incita a refletir sobre o racismo, o preconceito e, sobretudo, sobre o impacto dessas mazelas na constituição da sociedade brasileira. Para tanto, é preciso estar atento aos dados sobre acesso à educação, à saúde e ao trabalho, a sujeição à violência policial e a vulnerabilidade social.

De acordo com os dados do último censo, a população brasileira está classificada em 47,73% de brancos, 7,61% de pretos e 43,13% de pardos. Nos últimos anos, por força do Movimento Negro, adota-se a prática de somar pardos e pretos, considerados todos na nomenclatura “negros”. Assim sendo, hoje temos uma população de 50,74% de negros no país, portanto, maioritária. Não é o caso, nesse espaço, de concordar ou não com as estratégias do Movimento Negro ao somar pretos e pardos para ratificar essa afirmativa e, vale dizer, eliminar a mestiçagem. Vamos nos ater em algumas informações atualizadas sobre as desigualdades sociais e suas “condicionantes raciais”. Independentemente de estarmos ou não em acordo com as políticas reparadoras adotadas nos últimos anos, o que não podemos deixar de reconhecer é que, de fato, temos gritantes diferenças sociais que podem ser explicadas pelo processo histórico de exclusão dos não brancos. Os dados do IBGE e IPEA não deixam margens para dúvida.

É evidente que a pobreza tem cor no Brasil, que há um histórico de abandono e exclusão sofrido majoritariamente por não brancos e que a iniciativa individual de superação da pobreza não só é insuficiente como não passa de um mito mal-intencionado.

A Pesquisa das Características Étnico-raciais da População (PCERP), realizada em 2008, aponta que o “racismo e o preconceito seguem exercendo influência importante na vida das pessoas, em todos os campos das relações sociais” (IPEA). A taxa de homicídios entre jovens brasileiros negros é de 72,4 por 100 mil, enquanto que para jovens brancos é de 30,04 para cada 100 mil. Dos jovens entre 18 e 24 anos que frequentam uma universidade, 8,35% são negros, enquanto 21,60% são brancos. No início da década de 2000, 39,6% dos pretos/pardos tinham acesso a esgoto/fossa contra 62,7% dos brancos. Em 2001 a taxa de analfabetismo entre pretos/pardos era de 18% e entre os brancos era de 8%. É preciso pensar sobre isso no país.

O 15 de novembro e a república oligárquica

Publicado na Gazeta do Sul no dia 17 de novembro de 2012




Desde 1870 a Monarquia brasileira enfrentava uma série de crises que anunciava sua decadência. Dentre os grandes movimentos que sacudiram o cenário político daquele contexto, é preciso destacar a crise do sistema escravista e o esgotamento econômico das regiões cafeeiras do Vale do Paraíba. A estrutura econômica que sustentava a monarquia estava assentada no latifúndio monocultor, exportador e escravista, em mãos de uma elite conservadora e refratária às mudanças do capitalismo que, vale dizer, urgia em colocar fim ao sistema escravocrata para abrir novos mercados e disciplinar uma mão de obra suficientemente domesticada e treinada para a industrialização. Essas elites, incapazes, acabaram por entrar em decadência e, com ela, a própria estrutura política que mantinha os restos do império. Não é sem sentido que a monarquia tenha caído em 1889, no ano seguinte a abolição da escravatura. O republicanismo vacilante que norteou o movimento que levou ao 15 de novembro de 1889 ficou evidente já no conturbado período governado pelos dois militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Deodoro até mesmo um golpe desfechou em 1891, tentando concentrar o poder nas mãos do executivo. Estava claro que a República começa aos tropeços. Com a saída dos militares e a ascensão dos civis, na realidade cafeicultores ligados à lavoura paulista, foi construído um dos sistemas mais nefastos da história política brasileira: a chamada política dos governadores. Tratava-se de arranjos e acordos entre as oligarquias regionais e o governo central, o que garantia a eleição dos políticos que gravitavam em torno dos Partidos Republicanos estaduais e sustentavam, em nível federal, as decisões do governo. A barganha política do clientelismo construiu um sistema eleitoral corrupto, baseado no coronelismo e no voto de cabresto. Fortaleceu oligarquias estaduais e concentrou a economia nas mãos dos cafeicultores. São Paulo e Minas Gerais, os maiores produtores de café, a partir de um acordo que ficou conhecido como política do Café com Leite (Minas era produtora de leite também), se alternavam na Presidência, assegurando o poder politico que dinamizava a economia cafeeira. Era um sistema monocultor que, em breve, com a crise da bolsa de Nova York, em 1929, mostraria suas fragilidades.

O sistema monocultor estruturado na lavoura cafeeira impediu qualquer política contundente de industrialização e diversificação econômica. Insistiu num modelo que já era conhecidamente cíclico, e, em detrimento da economia do país, levou ao atraso, à miséria e a corrupção. Do ponto de vista político, a República Velha perverteu o pensamento liberal, oligarquizou o cenário político nacional, instituiu o clientelismo, que ainda hoje é dominante, e deixou um legado de abandono e exclusão de grande parte da população da época, no caso, os pobres e os recém-saídos da escravidão, que acabaram substituindo a senzala pela favela.

 

Sociedade, (Hiper)informação e tempo

Publicado na Gazeta do Sul dia 10-11-12


O filósofo Paul Virílio, ao se referir à sociedade contemporânea, regida pela lógica da velocidade e da (hiper)informação, afirma que “cada avanço dos transportes não é mais do que um progresso e emancipação do assento”. A revolução das tecnologias de informação implica uma nova forma de relacionamento do homem com a informação e o conhecimento, com o tempo/espaço e com a memória. Movemo-nos, sem sair do lugar, num mundo sobrecarregado de informações, informações que nos chegam numa velocidade até então jamais experimentada na História. Contudo, é bom lembrar que por vezes confundimos informação com conhecimento, e julgamos que se estivermos abastecidos com um volume significativo de informações estamos acessando ou produzindo conhecimento. Ledo engano. A aceleração das formas de aquisição de informações se estabelece na lógica da efemeridade, do ruído (excesso de informações) e do esquecimento. A questão que se coloca hoje é como pensar o conhecimento neste mundo virtualizado e hiper-carregado de informações? A diferença do processo de aquisição de informação para a produção de conhecimento, como até então entendemos, passa por uma nova relação com o tempo/espaço. O conhecimento pressupõe desaceleração do tempo. A leitura, no mundo contemporâneo, enfrenta um novo desafio: ombrear com a cada vez mais vertiginosa oferta de informações. O tempo que demanda a leitura de um livro, por exemplo, torna-se antieconômico frente ao acesso à informação multimídia. O que de fato retemos das informações que acessamos ou que chegam a nós a todo o momento? Em que medida essas informações nos levam à reflexão, à análise e à ponderação? Quais os critérios possíveis de filtragem dessas informações? É possível confiar nessas ofertas instantâneas que recebemos? Essa nova dinâmica em relação ao tempo nos conduziu a uma nova visão do mundo, da “realidade” e da espacialidade. Virílio nos coloca que “conhecer nosso mundo é ver que nossa sociedade não é mais vivida de dentro, mas é sobrevoada como se fosse um espetáculo”. De fato, vivemos uma era imagológica, das imagens, dos ícones, e não mais um tempo calcado no texto, na escrita imagética e linear.

Para o teórico Derrick de Kerckhove, “os computadores criaram uma nova forma de cognição intermédia, uma ponte de interação continuada, um corpus collosum entre o mundo exterior e os nossos eus interiores”. Ouvimos e vemos com o corpo como um todo, nossa percepção está no nível da pele. Assim, otimizamos nossa capacidade sensorial para a interação com o universo da informação e abrimos novas possibilidades em relação ao conhecimento. Para Kerckhove, essas novas tecnologias “acrescentam o (sic) tacto à visão e audição e está mais próxima de revestir totalmente o sistema nervoso humano do que alguma tecnologia até hoje o fez”. Talvez estejamos frente a uma nova forma de entendimento da cognição e do conhecimento.

 

História e tempo presente

Publicado na Gazeta do Sul dia 03/11/2012


Quando falamos em História geralmente temos o entendimento de que se trata de uma ciência inteiramente voltada ao passado, dedicada a “resgatar” acontecimentos, memórias e grandes feitos. Esse é, de fato, o entendimento tradicional dessa ciência que por quase dois séculos está presente nos currículos escolar e acadêmico. Mas a História, pelo menos no seu entendimento contemporâneo, não é uma ciência apenas voltada ao “passado”. Na realidade, ela só faz sentido se considerarmos o tempo presente de sua escrita, ou seja, o tempo do historiador, de suas escolhas, “subjetividades” e metodologias. Isso implica em considerar que, ao contrário do que poderíamos imaginar, não é o tempo presente que é o resultado acabado do passado, como se aquele fosse uma consequência de causas anteriores, mas, sobretudo, é o passado que é também uma construção do presente. É a partir de uma problematização feita pelo historiador, localizado no tempo e no espaço, que se coloca em movimento toda uma dinâmica de análise e construção do passado. Sem considerarmos o tempo/contexto do historiador não podemos entender porque determinada visão do passado é construída. Assim sendo, a História só se justifica por falar, na “verdade”, do tempo presente. Daí sua importância social, sua possibilidade estratégica para posicionar uma crítica ao nosso tempo, às narrativas que construímos sobre nossa cultura. É por isso que a História deve ser a ciência da desconstrução, que opera por desconfianças, que duvida sempre. É isso que possibilidade que a História seja uma arma política mais afeita a nos interpelar pela mudança do que nos apaziguar. Desconfiar, por exemplo, das narrativas comunitaristas que mais nos entorpecem do que nos dinamizam para o novo, para o desconforto das mudanças. Ver de outras maneiras o que temos por naturalizado, inconteste, esse é o desafio de uma narrativa histórica. É no campo das intervenções que o pensamento histórico pode nos mobilizar, nos instigar a pensar sobre como nos tornamos o que somos, nossas práticas sociais, comportamentos, maneiras de ver e construir o mundo.

É pela interpelação de seu próprio tempo que o historiador pode problematizar questões candentes, nucleares de seu próprio contexto. É uma construção do passado que passa sempre pela problematização do presente. Colocar aspas em grandes afirmações, andar pelo limiar de nosso próprio tempo, forçar à diferença, o novo, antídoto contra todo o discurso conservador, anedótico, tão comum às narrativas dedicadas a exaltar, a fazer odes, a construir heróis e tempos áureos. A História deve sempre se posicionar contra essas zonas de conforto da tradição, da mesmice, do enfadonho, de um passado idealizado para nos consolar da pobreza de nosso presente. Ao contrário disso tudo, a História deve ser o conhecimento que desconstrói, que afeta, que nos instabiliza e nos perturba. Numa palavra, nos transforma.