História e tempo presente

Publicado na Gazeta do Sul dia 03/11/2012


Quando falamos em História geralmente temos o entendimento de que se trata de uma ciência inteiramente voltada ao passado, dedicada a “resgatar” acontecimentos, memórias e grandes feitos. Esse é, de fato, o entendimento tradicional dessa ciência que por quase dois séculos está presente nos currículos escolar e acadêmico. Mas a História, pelo menos no seu entendimento contemporâneo, não é uma ciência apenas voltada ao “passado”. Na realidade, ela só faz sentido se considerarmos o tempo presente de sua escrita, ou seja, o tempo do historiador, de suas escolhas, “subjetividades” e metodologias. Isso implica em considerar que, ao contrário do que poderíamos imaginar, não é o tempo presente que é o resultado acabado do passado, como se aquele fosse uma consequência de causas anteriores, mas, sobretudo, é o passado que é também uma construção do presente. É a partir de uma problematização feita pelo historiador, localizado no tempo e no espaço, que se coloca em movimento toda uma dinâmica de análise e construção do passado. Sem considerarmos o tempo/contexto do historiador não podemos entender porque determinada visão do passado é construída. Assim sendo, a História só se justifica por falar, na “verdade”, do tempo presente. Daí sua importância social, sua possibilidade estratégica para posicionar uma crítica ao nosso tempo, às narrativas que construímos sobre nossa cultura. É por isso que a História deve ser a ciência da desconstrução, que opera por desconfianças, que duvida sempre. É isso que possibilidade que a História seja uma arma política mais afeita a nos interpelar pela mudança do que nos apaziguar. Desconfiar, por exemplo, das narrativas comunitaristas que mais nos entorpecem do que nos dinamizam para o novo, para o desconforto das mudanças. Ver de outras maneiras o que temos por naturalizado, inconteste, esse é o desafio de uma narrativa histórica. É no campo das intervenções que o pensamento histórico pode nos mobilizar, nos instigar a pensar sobre como nos tornamos o que somos, nossas práticas sociais, comportamentos, maneiras de ver e construir o mundo.

É pela interpelação de seu próprio tempo que o historiador pode problematizar questões candentes, nucleares de seu próprio contexto. É uma construção do passado que passa sempre pela problematização do presente. Colocar aspas em grandes afirmações, andar pelo limiar de nosso próprio tempo, forçar à diferença, o novo, antídoto contra todo o discurso conservador, anedótico, tão comum às narrativas dedicadas a exaltar, a fazer odes, a construir heróis e tempos áureos. A História deve sempre se posicionar contra essas zonas de conforto da tradição, da mesmice, do enfadonho, de um passado idealizado para nos consolar da pobreza de nosso presente. Ao contrário disso tudo, a História deve ser o conhecimento que desconstrói, que afeta, que nos instabiliza e nos perturba. Numa palavra, nos transforma.

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