O 15 de novembro e a república oligárquica

Publicado na Gazeta do Sul no dia 17 de novembro de 2012




Desde 1870 a Monarquia brasileira enfrentava uma série de crises que anunciava sua decadência. Dentre os grandes movimentos que sacudiram o cenário político daquele contexto, é preciso destacar a crise do sistema escravista e o esgotamento econômico das regiões cafeeiras do Vale do Paraíba. A estrutura econômica que sustentava a monarquia estava assentada no latifúndio monocultor, exportador e escravista, em mãos de uma elite conservadora e refratária às mudanças do capitalismo que, vale dizer, urgia em colocar fim ao sistema escravocrata para abrir novos mercados e disciplinar uma mão de obra suficientemente domesticada e treinada para a industrialização. Essas elites, incapazes, acabaram por entrar em decadência e, com ela, a própria estrutura política que mantinha os restos do império. Não é sem sentido que a monarquia tenha caído em 1889, no ano seguinte a abolição da escravatura. O republicanismo vacilante que norteou o movimento que levou ao 15 de novembro de 1889 ficou evidente já no conturbado período governado pelos dois militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Deodoro até mesmo um golpe desfechou em 1891, tentando concentrar o poder nas mãos do executivo. Estava claro que a República começa aos tropeços. Com a saída dos militares e a ascensão dos civis, na realidade cafeicultores ligados à lavoura paulista, foi construído um dos sistemas mais nefastos da história política brasileira: a chamada política dos governadores. Tratava-se de arranjos e acordos entre as oligarquias regionais e o governo central, o que garantia a eleição dos políticos que gravitavam em torno dos Partidos Republicanos estaduais e sustentavam, em nível federal, as decisões do governo. A barganha política do clientelismo construiu um sistema eleitoral corrupto, baseado no coronelismo e no voto de cabresto. Fortaleceu oligarquias estaduais e concentrou a economia nas mãos dos cafeicultores. São Paulo e Minas Gerais, os maiores produtores de café, a partir de um acordo que ficou conhecido como política do Café com Leite (Minas era produtora de leite também), se alternavam na Presidência, assegurando o poder politico que dinamizava a economia cafeeira. Era um sistema monocultor que, em breve, com a crise da bolsa de Nova York, em 1929, mostraria suas fragilidades.

O sistema monocultor estruturado na lavoura cafeeira impediu qualquer política contundente de industrialização e diversificação econômica. Insistiu num modelo que já era conhecidamente cíclico, e, em detrimento da economia do país, levou ao atraso, à miséria e a corrupção. Do ponto de vista político, a República Velha perverteu o pensamento liberal, oligarquizou o cenário político nacional, instituiu o clientelismo, que ainda hoje é dominante, e deixou um legado de abandono e exclusão de grande parte da população da época, no caso, os pobres e os recém-saídos da escravidão, que acabaram substituindo a senzala pela favela.

 

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