Sociedade, (Hiper)informação e tempo

Publicado na Gazeta do Sul dia 10-11-12


O filósofo Paul Virílio, ao se referir à sociedade contemporânea, regida pela lógica da velocidade e da (hiper)informação, afirma que “cada avanço dos transportes não é mais do que um progresso e emancipação do assento”. A revolução das tecnologias de informação implica uma nova forma de relacionamento do homem com a informação e o conhecimento, com o tempo/espaço e com a memória. Movemo-nos, sem sair do lugar, num mundo sobrecarregado de informações, informações que nos chegam numa velocidade até então jamais experimentada na História. Contudo, é bom lembrar que por vezes confundimos informação com conhecimento, e julgamos que se estivermos abastecidos com um volume significativo de informações estamos acessando ou produzindo conhecimento. Ledo engano. A aceleração das formas de aquisição de informações se estabelece na lógica da efemeridade, do ruído (excesso de informações) e do esquecimento. A questão que se coloca hoje é como pensar o conhecimento neste mundo virtualizado e hiper-carregado de informações? A diferença do processo de aquisição de informação para a produção de conhecimento, como até então entendemos, passa por uma nova relação com o tempo/espaço. O conhecimento pressupõe desaceleração do tempo. A leitura, no mundo contemporâneo, enfrenta um novo desafio: ombrear com a cada vez mais vertiginosa oferta de informações. O tempo que demanda a leitura de um livro, por exemplo, torna-se antieconômico frente ao acesso à informação multimídia. O que de fato retemos das informações que acessamos ou que chegam a nós a todo o momento? Em que medida essas informações nos levam à reflexão, à análise e à ponderação? Quais os critérios possíveis de filtragem dessas informações? É possível confiar nessas ofertas instantâneas que recebemos? Essa nova dinâmica em relação ao tempo nos conduziu a uma nova visão do mundo, da “realidade” e da espacialidade. Virílio nos coloca que “conhecer nosso mundo é ver que nossa sociedade não é mais vivida de dentro, mas é sobrevoada como se fosse um espetáculo”. De fato, vivemos uma era imagológica, das imagens, dos ícones, e não mais um tempo calcado no texto, na escrita imagética e linear.

Para o teórico Derrick de Kerckhove, “os computadores criaram uma nova forma de cognição intermédia, uma ponte de interação continuada, um corpus collosum entre o mundo exterior e os nossos eus interiores”. Ouvimos e vemos com o corpo como um todo, nossa percepção está no nível da pele. Assim, otimizamos nossa capacidade sensorial para a interação com o universo da informação e abrimos novas possibilidades em relação ao conhecimento. Para Kerckhove, essas novas tecnologias “acrescentam o (sic) tacto à visão e audição e está mais próxima de revestir totalmente o sistema nervoso humano do que alguma tecnologia até hoje o fez”. Talvez estejamos frente a uma nova forma de entendimento da cognição e do conhecimento.

 

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