A era da televisão

Publicado em 22 de dezembro de 2012 no jornal Gazeta do Sul


As novas tecnologias de informação têm provocado diversas transformações nas sociedades contemporâneas. Focamos, nesse texto, a era da televisão, primeiro grande momento das tecnologias de vídeo. Desde a era da televisão passamos a nos relacionar com mediações até então inéditas na História. A televisão promoveu o que alguns analistas chamam de mente ou consciência coletiva, a partir da qual passamos a compartilhar subjetividades e visões de mundo em comum. Mais do que isso, as tecnologias de vídeo abriram um novo campo de exploração dos sentidos, desejos e percepções. O avanço do marketing, a partir do evento dessas novas tecnologias, é evidente, o que potencializou significativamente a sociedade de consumo e a construção de uma lógica social calcada majoritariamente na lógica do mercado. Foi em função desse fenômeno que uma área da psicologia, chamada “tecnopsicologia”, passou a se dedicar a entender os efeitos dessas tecnologias no comportamento dos indivíduos. O teórico Derrick de Kerckchov nos apresenta as experiências de Steven Klien, diretor do Laboratório de Análise de Mídia da Simon Fraser University, em Vancouver, que desenvolveu um aparelho capaz de medir as reações fisiológicas das pessoas frente à televisão. O sujeito é ligado a um computador com dispositivos acoplados em vários pontos do corpo, capazes de mensurar várias reações fisiológicas. Ele é colocado frente à televisão e através de um joystick deve apontar se aprova ou não as imagens que vão sendo passadas em pequenos intervalos. Resultado: muito antes de conseguir emitir uma opinião sobre o que assistia o corpo inteiro do sujeito já havia apresentados reações, todas registradas pelo computador. A conclusão da pesquisa é evidente: a TV atinge primeiro o corpo e o sistema nervoso para depois atingir a consciência. Isso significa, de acordo com o autor, que quando estamos na frente da TV “as nossas defesas estão em baixa e, com isso, ficamos vulneráveis e suscetíveis à sedução multissensorial”. A TV, nesse sentido, inibe nossa capacidade crítica, e ao fazer isso acaba por apostar mais na repetição do que na análise.

As tecnologias de vídeo implicaram numa nova forma de percepção do mundo. Hoje as coisas não se apresentam mais como fotografias, estáticas, e sim em movimento, cinemáticas. Essa nova forma de apresentação do mundo nos faz conhecer as coisas por lances de olhar, por olhadelas, e não mais de forma sequencial, linear, como na leitura, por exemplo. A lentidão da leitura, a necessidade de imaginar, construir cenários e imagens, são substituídas pela aceleração da informação e imagens prontas. Se a leitura, como no jornal, nos permite retornar a uma parte do texto e retomar o raciocínio, a televisão, em função da irreversibilidade e velocidade, nos impede esse processo. Na era da internet, contudo, outras questões precisam ser consideradas, mas numa outra ocasião.

Um comentário:

Cristiano E.C. Bernardes disse...

Feliz coincidência na “Pele da Cultura”: estou me mudando, e na semana passada revisando livros e polígrafos, me deparei justamente com este texto que foi bibliografia de uma disciplina sua no mestrado. Não resisti a uma releitura. Grande abraço: Cristiano Bernardes.