Cultura Brasileira

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 08 de dezembro de 2012


O historiador Sérgio Buarque de Holanda, um dos mais importantes intérpretes da cultura brasileira, nos chama a atenção para o dilema entre tradição e modernidade na constituição de nosso país. Somos uma sociedade que se constituiu a partir da aproximação entre o Estado e a lógica familiar, ao contrário da lógica moderna em que o Estado é, de fato, o oposto da família, ou seja, ele não é a extensão da família e sim a negação desta. Isso significa que, enquanto a família se constrói sobre códigos morais hierárquicos e de intimidade pessoal, o Estado deve ser o espaço da ordem pública, baseada em relações formais e igualitárias. Nosso dilema é que insistimos em transformar o espaço público na extensão de nossas relações familiares. Disso resulta, por exemplo, um Estado em que o nepotismo não é visto como uma afronta. De fato, o mérito ou a competência são sempre, ou quase sempre, subtraídos pela lógica das amizades e dos compadrios. Chama-se a um cargo público importante alguém que pertence a relações pessoais de quem os nomeia. Empregar um amigo, amigo de amigo, um conhecido, parente próximo ou distante, parentes de conhecidos, entre outros, respeita uma dinâmica política em que o Estado (espaço público) se constitui como desdobramento de nossos interesses particulares (privados). Os últimos escândalos políticos do país não deixam dúvida sobre isso.

Essa lógica social constrói/corrói nosso cotidiano. Quando nos debruçamos sobre o espaço escolar, por exemplo, temos um exemplo claro de como essas relações são reproduzidas. Repare-se na terminologia “tia” que substitui entre nós a professora, sobretudo na educação infantil. Num espaço que deveria prezar pela igualdade, pelos princípios universais que formalizam as regras e as condutas sociais, estimulamos, ao contrário, a preservação dos valores, ou designações, familiares. Perde-se, desde a primeira educação escolar, a possibilidade de valorizar a formalização das relações sociais e, aí sim, propagar os valores da igualdade. Ao invés disso, reproduzimos, ou melhor, aprendemos, a não reconhecer o espaço público. Disso resulta, também, e por caminho similar, que os alunos, desde pequenos, quando chegam à escola percebem esse patrimônio de forma ambígua. Ao sentarem-se nas classes, fazem delas o que querem, a começar pelos rabiscos e, no extremo, a destruição. Como se constituem em bens públicos, não merecem o respeito dado aos bens privados, os da casa. Desvalorizar o patrimônio público é o sintoma de nosso desprezo pelo espaço da igualdade. Jamais agiríamos em casa como agimos na rua. A rua é esse espaço em que não existimos como pessoa, com sobrenome, cargo e deferência familiar, e sim como indivíduos iguais. É o espaço onde volta e meia nos impomos, como por exemplo, a partir do antipático “carteiraço”, ou a partir da famigerada expressão, estudada pelo antropólogo Roberto DaMatta: “você sabe com quem está falando?”.  

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