Educação para o nosso tempo?


Publicada na Gazeta do Sul em 15 de dezembro de 2012


A Educação está no centro dos debates sobre o que se espera do Brasil para os próximos anos. É comumente apontado que a educação está em crise, o que não é novidade, e que há um descompasso entre o que se entende por educação e o papel da escola no mundo contemporâneo. Um mundo veloz, submetido a um mercado cada vez mais competitivo, atomizador, individualista e meritocrático. Trata-se da “vitória” do discurso chamado de neoliberal, cuja ênfase se dá justamente na (hiper)responsabilização dos indivíduos, agora sujeitos a um mundo da desregulamentação do trabalho, da instabilidade e do risco. Um mundo que separa radicalmente o poder da política, que desobstrui as estradas para o capital, que intimida o poder do Estado, que institui uma moral “à la carte” (destituída de significados duradouros) e, como é sabido, faz do mercado a lógica da própria vida social.

Frente a esse quadro, a educação é pensada como desencaixada, anacrônica e perdida no tempo. Quando se afirma que a escola está fora do nosso tempo, que os docentes não visam a formação dos alunos para um mercado competitivo, para o mundo do trabalho, etc, etc, estamos afirmando que precisamos adequar a educação a essa sociedade que temos. A questão que se coloca é a seguinte: a educação deve estar sujeitada ao contexto em que estamos vivendo e dar sua contribuição para as coisas funcionarem a contento e, assim, ajustar os indivíduos a esse mundo, ou deve exercer justamente o papel questionador dos valores que nos norteiam hoje? Não se pode colocar em dúvida que, para além dessa problemática, a educação passa por um processo de “crise”. O que se problematiza é um certo discurso que aponta a crise da educação em função de seu desajuste em relação a contemporaneidade. Temos que aceitar que o que se entendia como infância mudou, e muito. Se no passado a escola tinha por função educar uma infância ingênua, que tinha nos adultos a sua referência e dependência, hoje temos uma infância caracterizada pela independência, que nos surpreende o tempo todo, erotizada, insegura e que tenta se adaptar a um mundo de incertezas e inseguranças. Contudo, e isso é importante, ajustar a infância a um mundo considerado inevitável é nos render a uma lógica que nos assujeita, que nos diz o que fazer e nos governa. A educação que tem por objetivo a adequação, visa à padronização dos comportamentos, sentimentos e falas. Seguindo esse caminho, a educação tende a preparar os alunos para serem gestores de si, pois hoje não basta mais prepará-los para o mundo do trabalho, mas sim para inventar o trabalho e suas exigências, sempre em mudanças. Porém, a educação não deve ser uma instituição passiva e adequadora, precisa ser, sim, uma instituição propositiva, que invista não só em competências, mas que seja reflexiva e capaz de formar também sujeitos aptos a pensar sobre o mundo que vivemos e a história que estamos construindo. 

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