A boa morte

Publicado na Gazeta do Sul, dia 12 de janeiro de 2013



Há variadas formar de morrer e diversas maneiras de lidar com a morte. Perceber essa diversidade nos ajuda a entender que a morte tem história e essa história nos ensina muito sobre como os vivos dão conta dela. Para efeito de contraste com o nosso tempo, vejamos como a morte era pensada no século XIX. Nessa época, uma preocupação constante era como ter uma “boa morte”. Nesse contexto, marcado pelo materialismo, se revela uma nova sensibilidade em relação à morte. Os mortos farão cada vez mais parte do mundo dos vivos. Ela passa a ser cercada de uma incrível dramaticidade, revelada na complexificação dos velórios (em casa), nas festas para os finados, na presença das carpideiras e dos padres, e nos infindáveis lutos. Há um figurino preparado exclusivamente para a morte. No final do século XIX, com o surgimento da fotografia, os mortos passaram a ser fotografados junto com os familiares. Eram arrumados, preparados, “estaqueados” ou postados em sofás ou cadeiras e, acompanhados dos familiares, eram fotografados. As crianças com até um ano de idade, quando morriam, eram consideradas anjos, e é assim que as encontramos fotografadas, vestidas com asas e aréolas. Um amortecedor emocional importante para a perda das crianças numa época em que as pestes ainda rondavam as cidades e a mortandade infantil entre nós era aviltante.

Morrer, nessa época, exigia uma preparação. O futuro morto (estamos falando dos pertencentes à classe média e à elite da época) começava a preparar sua morte quando chegava a uma determinada idade ou uma enfermidade era diagnosticada. Tratava de acertar alguns contratos com a Igreja, aumentar algumas contribuições, pagar algumas taxas referentes a missas futuras e, sempre, preparar boas confissões. Dentre as questões mais importantes estavam as dívidas. Era de bom tom, para conseguir um invejável lugar pós-morte, estar com as coisas quitadas por aqui. Aí, o que se fazia, era sair atrás dos credores.

Onde ficar depois de morto? Isso diz respeito ao status social e econômico. Conseguir uma vaga dentro da Igreja era o que se tinha de melhor: quanto mais perto dos altares, maior satisfação. Mas isso tinha um alto custo. No cemitério, ao redor da Igreja, era, ainda, aceitável. Na segunda metade do século XIX, por sinal, os cemitérios começam a ser secularizados e ganham novo figurino. É quando se constituíram como os conhecemos hoje, uma reprodução, em pequena escala, da cidade e da forma como nos organizamos socialmente. Como vivemos numa sociedade hierárquica, avessa a ideia de igualdade, os cemitérios, da mesma forma, reproduzem uma sociedade/cidade, com suas diferenças sociais, desde a localização, suntuosidade dos “prédios” e, geralmente ao fundo, um campo para os desvalidos. Como vimos, observar como pensamos a morte nos revela muito sobre como entendemos a vida.

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