Multiculturalismo e Crise Europeia

Publicado em 29-12-2012 na Gazeta do Sul


Não é raro assistirmos, nos momentos de crise, a construção de um culpado em que se possa direcionar as atenções e identificar com nitidez as razões das turbulências. Desde o início da crise que vem assolando os países europeus, nomeadamente os partícipes da Comunidade Europeia, uma nova construção discursiva vem moldando um ataque conjunto ao multiculturalismo. Trata-se de uma forma nova de articulação dos países europeus frente à questão dos estrangeiros, o alvo preferencial do discurso conservador. Tzvetan Todorov, em belíssima análise dessa problemática, nos chama a atenção como esse movimento conservador de ataque ao multiculturalismo é, na realidade, uma cortina de fumaça que desvia a discussão dos fundamentos da crise cultural dos países europeus. Antes de apontarmos o que se oculta sob esse discurso xenófobo e conservador, vejamos algumas manifestações de ataque ao multiculturalismo na Europa. A chanceler alemã, Angela Merkel, em outubro de 2010, disse publicamente que a ideia de convívio entre diferentes culturas na Alemanha havia fracassado. Na sequencia afirmou que: “Nós nos sentimos ligados aos valores cristãos. Quem não aceita isso não tem lugar aqui”. Esse discurso foi seguido pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, para quem é chegada a hora de virar a página dessa política (multicultural) do passado. Do mesmo modo, o primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, afirmou a necessidade de “fechar as fronteiras aos deserdados”. E o ex-presidente francês, Sarkozy, propalou que é preciso obrigar os imigrados a “fundirem-se na comunidade nacional”.    

Nesse ambiente afeito à xenofobia era publicado um livro que coroava esses discursos. Trata-se da obra “A Alemanha extingue a si mesma”, de autoria de Thilo Sarrazin, um funcionário do Banco Central alemão, que vendeu 1,2 milhão de exemplares e que, segundo Todorov, teve aprovação de 50% da população. O livro é, de fato, um libelo racista e eugenista que chega afirmar que “não se consegue descobrir nenhum potencial intelectual particular entre os imigrados muçulmanos” (...) e que “os imigrantes do Oriente Próximo sofrem de taras genéticas”. Os exemplos poderiam ser multiplicados, mas já são suficientes para atentarmos para ânimos conservadores que grassam na Europa hoje.

Esses discursos conservadores, também chamados de neo-comunitaristas pelo sociólogo Zigmunt Bauman, se insurgiram, na realidade, com o avanço da globalização e do hiper-individualismo. A ameaça do apagamento das culturas nacionais com a União Europeia e, sobretudo com o avanço da fluidez do capital e sua consequente tentacularização com as transnacionais, criaram esse ambiente propício de vertigem da crise cultural e porosidade de fronteiras. Se a globalização e o individualismo são, no dizer de Todorov, abstrações impalpáveis, o estrangeiro é fácil de identificar, é concreto, “na maioria das vezes tem pele escura e costumes estranhos”.

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