Multiculturalismo

Publicado dia 05 de janeiro de 2013 na Gazeta do Sul


As questões que envolvem a convivência entre diferentes culturas são sempre complexas. No mundo moderno essa complexidade está relacionada à forma como nos organizamos em sociedade desde o século XIX, quando inventamos a chamada identidade nacional. De lá pra cá, e repare-se que faz muito pouco tempo, é que passamos a nos identificar como pertencentes a um país, uma pátria e uma nacionalidade. Até o final da Segunda Grande Guerra, esse arranjo que em alguns momentos descambou para o nacionalismo e o racismo, conseguiu manter a imaginada identidade nacional intocada. Contudo, a partir da falência das grandes potências europeias e do grande movimento de libertação das antigas colônias dessas potências, um novo arranjo entrou em cena: trata-se do multiculturalismo, uma forma de organização social que reconhece que as nações são formadas por diferentes identidades e não mais por uma identidade homogeneizadora que submete todos a um mesmo credo cultural. Nos EUA, esse reconhecimento foi fundamental para a expansão, por exemplo, do Movimento Negro norte-americano e suas lutas pelos direitos civis. Na Europa, os movimentos migratórios, induzidos ou não, foram responsáveis pela reconstrução do velho continente no pós-guerra. A partir dos anos 1970-80 as coisas começaram a se complicar. Se no pós-guerra as ideias de raça, pureza e homogeneidade cultural foram contidas e até execradas, a partir dos anos 1970-80 essas ideias começam a retomar seu campo de intervenção politico-cultural, dando vazão a sentimentos conservadores que passaram a reivindicar antigas identidades. O problema com os imigrantes data dessa época de expansão, vale dizer, do neoliberalismo e da globalização, quando as fronteiras politicas das nações deixaram de ser demarcações seguras da identidade nacional. Qualquer turbulência econômica ou desequilíbrio das taxas de empregabilidade, passaram a contar com uma causa: os imigrantes, os forasteiros.

Embaralhara-se a identidade nacional e um novo inimigo universal aparecia. Sobre ele poderia se colocar toda a culpa pela degradação dos valores e da economia dos autóctones. Eram bons culpados. Desse processo nasce o neoconservadorismo europeu.

Na realidade, o multiculturalismo como política de convivência fora um grande mal-entendido sobre a ideia de convivência. Baseado na ideia de reconhecimento das diferenças e da tolerância, escondia o desejo, sempre presente, de manter bem firmes as fronteiras étnico-culturais. Conviver num mesmo território sim, mas bem separados culturalmente. Jamais o multiculturalismo percebeu a necessidade de avançar para uma política intercultural, daí que o estrangeiro sempre pode ser mantido nessa zona de desconfiança eterna, jamais superada e sempre revivida quando necessário. O imigrante ou forasteiro, não importa como se queira chamar, é sempre um bom escoadouro para nossas fragilidades e indecências sociais. 

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