De Sarney a Calheiros

Publicado na Gazeta do Sul em 16 de fevereiro de 2013


José Sarney e Renan Calheiros pertencem a gerações diferentes de políticos brasileiros, mas com muita coisa em comum. O primeiro é oriundo direto da tradição do coronelismo urbano, pós-República Velha, e representa o Brasil do arcaísmo, do autoritarismo, do patrimonialismo e do bacharelismo. Época em que não bastava ser político de prestígio ou de poder, era preciso adentrar o mundo das letras, ser poeta e escritor, flertar com as artes e tudo o que a estética gongórica sugere para parecer, como dizia Machado de Assis, um medalhão, um sujeito de aparências, de pouco conteúdo e muita bossa. A biografia de Sarney é a típica do medalhão, estereótipo do político de carreira brasileiro. Entre a década de 1950 e 1980 participou de quatro legendas partidárias: PSD nos anos 50, UDN nos anos 60, ARENA nos anos 70, quando fora governador do Maranhão, e PDS nos anos 80. Depois virou homem de centro, largou o barco dos militares e, de forma muito estranha, se tornou Presidente da República, entre 1985 e 1990. Um desastre como presidente, vale lembrar. Sarney foi Senador a partir dos anos 70. Presidiu o Senado Federal em quatro períodos: de 1995 a 1997, de 2003 a 2005, de 2009 a 2011 e de 2011 até 2012, quando foi substituído pelo alagoano Renan Calheiros. O Maranhão, reduto de Sarney, representa exatamente o legado político do atraso. Há quase 70 anos é governado pela família do perpétuo senador e é um dos estados mais pobres do país. Hoje Sarney é Senador pelo Estado do Amapá, cujo mandato vai até 2015. Em que pese ter sido acusado de inúmeras falcatruas, conseguiu se perpetuar no poder. Mesmo sendo um escritor medíocre, conseguiu entar na Academia Brasileira de Letras. E por aí vai.

Renan Calheiros, o alagoano que sucedeu Sarney na Presidência do Senado Federal, foi um bom aprendiz do que temos de pior da tradição política brasileira. Desde 1994 ocupa uma cadeira no Senado Federal e está no seu terceito mandato (de oito anos). Ocupou a Presidência da Casa - o nome já é sugestivo - entre 2005 e 2007, quando acabou por renunciar, depois de várias denúncias de corrupção. Entre as inúmeras acusaçoes de contra Calheiros, vale destacar: recebimento de dinheiro de lobistas, utilização de laranjas para firmar negociatas, ser dono oculto de duas emissoras de rádio e de um jornal na terra de Collor de Melo e, ainda, ser acusado de receber dinheiro de uma construtora, com o qual pagava a pensão de uma filha que teve com a jornalista Mônica Veloso. Hoje, para a revolta de muitos brasileiros, volta a Presidência do Senado, com apoio do governo federal. Diga-se de passagem, Calheiros está cotado para concorrer ao governo de alagoas, em 2014, e será um grande apoiador de Dilma ou Lula. É preciso dominar o campo plebiscitário, o Maranhão de Sarney já está garantido. Em tempo: Calheiros, como Sarney, é escritor, já publicou quatro livros. O título de um deles merece ser citado: “Sem Justiça não há Cidadania”.

A era pós-moralista: para pensar o nosso mundo

Publicado na Gazeta do Sul em 09 de fevereiro de 2013


Desde o século XIX, o homem ocidental consolidou o processo de acesso à virtude sem, necessariamente, a ajuda de Deus e dos ensinamentos teológicos. Trata-se do secularismo, característica fundamental da modernidade e, vale dizer, do Estado-nação moderno. Essa “passagem” de uma visão de mundo norteada pela religiosidade para uma visão secular, no entanto, não desprezou por inteiro alguns princípios da ética religiosa. É preciso chamar a atenção que o mundo secular aproveitou, e até elevou, a ética do dever e a ética do sacrifício, presentes no cristianismo. É isso que nos permite entender, segundo o pensador Gilles Lipovetsky, porque a sociedade moderna se organizou a partir da obrigação moral, do espírito cívico e político, do culto laico da abnegação e da devoção sem falhas ao serviço da família e mesmo da nação. De acordo com Lipovetsky, o nosso tempo apresenta outra configuração da organização social, baseada não mais da ética do dever e do sacrifício, mas sim do pós-dever, uma época pós-moralista. O que isso significa de fato? O autor responde que a Sociedade Pós-moralista é aquela que “estimula mais os desejos, o ego, a felicidade, o bem-estar individualista, do que o ideal de abnegação”, como outrora. Noutra palavras, “a nossa cultura já não é dominada pelos imperativos do dever (...), mas pela felicidade e pelos direitos subjetivos. A cultura da ética de sacrifícios, que vigorou amplamente até meados do século XX, foi liquidada”. Podemos entender, segundo esta perspectiva de análise, porque tantos internautas se consideram tão felizes no Facebook, por exemplo. Por que temos tanta necessidade de nos mostrarmos felizes? A tristeza ou, como dizemos hoje, a depressão, é sinal de fracasso. Essa é uma cultura que fez da satisfação dos desejos a regra da vida, uma cultura hedonista que não suporta a frustração e os limites que, vamos admitir, devem estar presentes e explícitos para qualquer indivíduo.

Na perspectiva de nosso autor, contudo, a sociedade pós-moralista não é, necessariamente, uma sociedade do cinismo generalizado, do licenciamento dos costumes, etc. Para nosso autor, ao mesmo tempo em que se observa um individualismo exacerbado, “nunca houve tanta preocupação com a proteção dos direitos da pessoa, tanta preocupação com as gerações futuras (a ecologia), com os usos sábios (sustentabilidade)”. Podemos chamar a atenção ainda para a generalização do trabalho voluntário e o proselitismo do respeito às diferenças, tão propagados hoje. Estamos, é preciso reconhecer, vivendo uma era paradoxal e complexa. É preciso investir no entendimento de nossas sociedades contemporâneas e, quem sabe, começar a compreender melhor porque chegamos ao ponto, também, da banalização da violência, da corrupção, das “bombas humanitárias” e da crise do modelo democrático.        

O que aprendemos com tudo isso?

Publicado na Gazeta do Sul em 02 de fevereiro de 2013


A tragédia de Santa Maria, para além da profunda tristeza que nos causa, para além do drama familiar que provocou, precisa ser pensada e encarada pela sociedade como um dos desdobramentos de nossa irresponsabilidade, egoísmo e ambição desenfreados. Geralmente, quando enfrentamos tragédias como essa, nos deparamos com uma série questões que revelam nosso perfil enquanto sociedade. Não são raros os casos em que as investigações demonstram o descaso, o descumprimento de normas, a improvisação e a anuência irresponsável do poder público. O descumprimento da legislação é praticamente a norma. Somos um país que cotidianamente despreza as leis e os acordos. É preciso encarar de frente que ainda nos guiamos pela famosa “Lei de Gerson”, ainda achamos que precisamos “levar vantagem em tudo”, mesmo que para isso alguém pague a conta. De fato, nossa malandragem não tem nada de romântica, não pode mais ser encarada como traço cultural de nossa sociedade e com isso relativizarmos os atos criminosos que ela suscita. Este é um país em que o Estado está sempre se esgueirando de suas responsabilidades.

Temos muita dificuldade em aprender com nossos erros. Depois que as coisas acontecem os burocratas saem de suas tocas correndo para mostrar serviço: fiscalização exemplar, autuações, multas, etc... Agora, depois da tragédia de Santa Maria, estamos focados em fiscalizar as casas noturnas. Certamente, se as inspeções forem feitas de acordo com a legislação, muitas serão fechadas. Hoje, as casas noturnas estão em nossa mira, até mesmo forças-tarefa se mobilizaram para fiscalizar, mas não se trata disso. É patético assistir burocratas posando de eficientes funcionários da causa pública depois que as coisas aconteceram. Quem se pergunta sobre os outros estabelecimentos, as inspeções em transportes públicos, nas escolas (muitas prestes a desabar), nos prédios residenciais e comerciais? Daqui a algum tempo já teremos voltado à rotina da ineficiência. As coisas são mais complexas. Uma sociedade que se deseja civilizada precisa trabalhar sempre na prevenção, na antecipação dos fatos. É preciso admitir que ainda preferimos deixar as coisas ao acaso e somente quando as desgraças ocorrem é que saímos a correr e dar exemplos de solidariedade. Solidariedade é mais salutar quando ela suscita o espírito republicano de cumprir as leis em nome de uma coletividade. Ser solidário nas tragédias é nobre, mas não basta. Como exigir implacavelmente o cumprimento das normas sociais quando não temos o desejo sincero de cumpri-las?

No caso da tragédia de Santa Maria o empurra-empurra dos responsabilizáveis já começou. Certamente vamos apontar um culpado e demonizá-lo. Vamos gritar por justiça e exigir que o sistema funcione. Mas, num caso como esse, temos uma rede de culpados e, vamos admitir, essa culpa transborda as fronteiras do caso em si, deve nos tocar também.  

  

Carnaval em Santa Cruz do Sul

Publicado na Gazeta do Sul em 26 de janeiro de 2013




Importante papel do Conselho Municipal de Desenvolvimento do Lazer (Conlazer) em aprovar uma verba de R$ 110 mil reais para a realização do carnaval em Santa Cruz do Sul. Importante por muitos motivos, vamos nos ater em apenas um: o município tem se esforçado em garantir os princípios da diversidade cultural, mesmo que estes sejam ainda limitativos, pois ainda baseados numa concepção multiculturalista que precisa avançar. Espera-se, ainda, para aprovação da verba, a chancela da Câmera Municipal, o que “deverá ocorrer”, em breve.

O carnaval, como sabemos, é uma instituição nacional, gostemos ou não, e sendo assim, Santa Cruz do Sul, como cidade verdadeiramente brasileira, o que é notório em suas manifestações políticas, cotidianas e culturais, cumpre um efetivo papel em garantir que as escolas de samba da região possam financiar suas manifestações e, com isso, compartilhar desse evento nacional carregado de símbolos da cultura brasileira. Em Santa Cruz Sul o carnaval tem dupla importância, pois não se trata somente de uma manifestação da cultura brasileira, mas também de afirmação da cultura afro-brasileira que, vale notar, em que pese ser significativamente presente no município, precisa, dia a dia, conquistar e legitimar seus espaços. E por falar em espaço, uma polêmica recente tem colocado em questão a volta do carnaval às ruas. Nada mais justo, até porque o carnaval é uma festa popular que tem a rua como palco privilegiado. A rua, como espaço público, oferece as condições ideais para a integração da festa junto à comunidade mais ampla.

Santa Cruz do Sul tem intensa vida cultural, o que é evidente em eventos como a Oktoberfest e o Enart. A Oktoberfest, vale dizer, ocupa efetivamente as ruas, o que torna a festa mais integrada à comunidade. Além disso, a comunidade vem, ano a ano, se mobilizando para garantir o financiamento da festa, com todos os riscos que estão aí colocados. Não há motivo para que o carnaval não tenha apoio público, que este atenda da mesma maneira como o faz com outros eventos, as reivindicações dos carnavalescos do município. Garantir financeiramente que a festa popular possa ocorrer com o mínimo de qualidade é afirmar, também, certa equidade cultural, verdadeiro respeito à diversidade que impera na região.

Assegurar o direito às manifestações culturais no município é uma obrigação do poder público e um direito assegurado à cidadania de todos. Como sabemos, Santa Cruz do Sul é uma cidade multicultural, e é com essa compreensão que os poderes municipais devem se posicionar frente às demandas culturais: garantindo a redistribuição de direitos e o respeito às diferenças. É esse caráter bidimensional da justiça que deve ser incorporado pelo poder público, até porque esse é o caminho contemporâneo da ideia de igualdade e cidadania.