A era pós-moralista: para pensar o nosso mundo

Publicado na Gazeta do Sul em 09 de fevereiro de 2013


Desde o século XIX, o homem ocidental consolidou o processo de acesso à virtude sem, necessariamente, a ajuda de Deus e dos ensinamentos teológicos. Trata-se do secularismo, característica fundamental da modernidade e, vale dizer, do Estado-nação moderno. Essa “passagem” de uma visão de mundo norteada pela religiosidade para uma visão secular, no entanto, não desprezou por inteiro alguns princípios da ética religiosa. É preciso chamar a atenção que o mundo secular aproveitou, e até elevou, a ética do dever e a ética do sacrifício, presentes no cristianismo. É isso que nos permite entender, segundo o pensador Gilles Lipovetsky, porque a sociedade moderna se organizou a partir da obrigação moral, do espírito cívico e político, do culto laico da abnegação e da devoção sem falhas ao serviço da família e mesmo da nação. De acordo com Lipovetsky, o nosso tempo apresenta outra configuração da organização social, baseada não mais da ética do dever e do sacrifício, mas sim do pós-dever, uma época pós-moralista. O que isso significa de fato? O autor responde que a Sociedade Pós-moralista é aquela que “estimula mais os desejos, o ego, a felicidade, o bem-estar individualista, do que o ideal de abnegação”, como outrora. Noutra palavras, “a nossa cultura já não é dominada pelos imperativos do dever (...), mas pela felicidade e pelos direitos subjetivos. A cultura da ética de sacrifícios, que vigorou amplamente até meados do século XX, foi liquidada”. Podemos entender, segundo esta perspectiva de análise, porque tantos internautas se consideram tão felizes no Facebook, por exemplo. Por que temos tanta necessidade de nos mostrarmos felizes? A tristeza ou, como dizemos hoje, a depressão, é sinal de fracasso. Essa é uma cultura que fez da satisfação dos desejos a regra da vida, uma cultura hedonista que não suporta a frustração e os limites que, vamos admitir, devem estar presentes e explícitos para qualquer indivíduo.

Na perspectiva de nosso autor, contudo, a sociedade pós-moralista não é, necessariamente, uma sociedade do cinismo generalizado, do licenciamento dos costumes, etc. Para nosso autor, ao mesmo tempo em que se observa um individualismo exacerbado, “nunca houve tanta preocupação com a proteção dos direitos da pessoa, tanta preocupação com as gerações futuras (a ecologia), com os usos sábios (sustentabilidade)”. Podemos chamar a atenção ainda para a generalização do trabalho voluntário e o proselitismo do respeito às diferenças, tão propagados hoje. Estamos, é preciso reconhecer, vivendo uma era paradoxal e complexa. É preciso investir no entendimento de nossas sociedades contemporâneas e, quem sabe, começar a compreender melhor porque chegamos ao ponto, também, da banalização da violência, da corrupção, das “bombas humanitárias” e da crise do modelo democrático.        

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