O que aprendemos com tudo isso?

Publicado na Gazeta do Sul em 02 de fevereiro de 2013


A tragédia de Santa Maria, para além da profunda tristeza que nos causa, para além do drama familiar que provocou, precisa ser pensada e encarada pela sociedade como um dos desdobramentos de nossa irresponsabilidade, egoísmo e ambição desenfreados. Geralmente, quando enfrentamos tragédias como essa, nos deparamos com uma série questões que revelam nosso perfil enquanto sociedade. Não são raros os casos em que as investigações demonstram o descaso, o descumprimento de normas, a improvisação e a anuência irresponsável do poder público. O descumprimento da legislação é praticamente a norma. Somos um país que cotidianamente despreza as leis e os acordos. É preciso encarar de frente que ainda nos guiamos pela famosa “Lei de Gerson”, ainda achamos que precisamos “levar vantagem em tudo”, mesmo que para isso alguém pague a conta. De fato, nossa malandragem não tem nada de romântica, não pode mais ser encarada como traço cultural de nossa sociedade e com isso relativizarmos os atos criminosos que ela suscita. Este é um país em que o Estado está sempre se esgueirando de suas responsabilidades.

Temos muita dificuldade em aprender com nossos erros. Depois que as coisas acontecem os burocratas saem de suas tocas correndo para mostrar serviço: fiscalização exemplar, autuações, multas, etc... Agora, depois da tragédia de Santa Maria, estamos focados em fiscalizar as casas noturnas. Certamente, se as inspeções forem feitas de acordo com a legislação, muitas serão fechadas. Hoje, as casas noturnas estão em nossa mira, até mesmo forças-tarefa se mobilizaram para fiscalizar, mas não se trata disso. É patético assistir burocratas posando de eficientes funcionários da causa pública depois que as coisas aconteceram. Quem se pergunta sobre os outros estabelecimentos, as inspeções em transportes públicos, nas escolas (muitas prestes a desabar), nos prédios residenciais e comerciais? Daqui a algum tempo já teremos voltado à rotina da ineficiência. As coisas são mais complexas. Uma sociedade que se deseja civilizada precisa trabalhar sempre na prevenção, na antecipação dos fatos. É preciso admitir que ainda preferimos deixar as coisas ao acaso e somente quando as desgraças ocorrem é que saímos a correr e dar exemplos de solidariedade. Solidariedade é mais salutar quando ela suscita o espírito republicano de cumprir as leis em nome de uma coletividade. Ser solidário nas tragédias é nobre, mas não basta. Como exigir implacavelmente o cumprimento das normas sociais quando não temos o desejo sincero de cumpri-las?

No caso da tragédia de Santa Maria o empurra-empurra dos responsabilizáveis já começou. Certamente vamos apontar um culpado e demonizá-lo. Vamos gritar por justiça e exigir que o sistema funcione. Mas, num caso como esse, temos uma rede de culpados e, vamos admitir, essa culpa transborda as fronteiras do caso em si, deve nos tocar também.  

  

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