História Silenciada

Publicado da Coluna História & Cotidiano no jornal Gazeta do Sul, dia 29 de março de 2013


 
Há 49 anos, no dia primeiro de abril, o Brasil sofria um golpe militar que instituía uma ditadura cujas consequências ainda são visíveis em nossos dias. O país passava a fazer parte de um movimento que já iniciara na América Latina desde os anos 1950, com forte apoio norte-americano, de instauração de governos ditatoriais incumbidos de impedir a proliferação das ideias e movimentos socialistas no continente. O sucesso revolucionário do Grupo 26 de julho, em Cuba, em 1959, intensificou as intervenções políticas dos EUA no hemisfério sul da América, e o Brasil, como o maior país da região não ficaria de fora. Em plena Guerra Fria seria duvidoso pensar que o Brasil pudesse optar por uma neutralidade de fato. A ditadura militar, apoiada por setores empresariais interessados na abertura econômica e na limitação do avanço dos direitos trabalhistas, durou até 1985 (anos finais da Guerra Fria, por sinal). Somente a partir de 2011, com a instauração da Comissão Nacional da Verdade, que a sociedade brasileira passou a ter a oportunidade de conhecer melhor os bastidores mais horrendos do regime que fez do assassinato e da tortura uma estratégia de Estado. É preciso que a História desse período seja aprofundada, que os crimes praticados pelo Estado Ditatorial sejam esclarecidos, que sejam dadas satisfações às famílias das vítimas. Hoje se percebe que se a Lei da Anistia, de 1979, fora uma saída conciliatória para a abertura política, ela é também um escudo protetor para os criminosos que atuaram sob a ditadura. Se dificilmente se partirá para o julgamento e punição de culpados, pelo menos que os acontecimentos sejam de domínio público. Que a História deste período sombrio seja reescrita e que a verdade sobre os que tombaram ou desapareceram seja restaurada. Um exemplo é o caso do jornalista Vladimir Herzog, encontrado morto em sua cela, nas dependências do Doi-Codi em 1975. Segundo a versão oficial, o jornalista havia se suicidado, versão na qual ninguém jamais acreditou. A justiça de São Paulo, recentemente, determinou a retificação da causa morte de Herzog, acusando as lesões e mais tratos em seu atestado de óbito (Ver: http://www.cnv.gov.br). Da mesma maneira, a participação do Brasil na chamada Operação Condor precisa ser melhor esclarecida, o que nos revelaria inclusive a dimensão das relações entre os movimentos ditatoriais no contexto da Guerra Fria na América Latina. O Estado brasileiro tem, agora, através da Comissão Nacional da Verdade, a chance de assumir sua responsabilidade com a memória social, com sua História. É preciso tirar esse passado infame dos arquivos e dos porões que ainda sufocam tantas vozes caladas pela brutalidade e ignorância.

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