Os drones e a democracia

Publicado na Gazeta do Sul em 24 de maio de 2013


Vivemos na sociedade do espetáculo, da grande exposição pública, do grande olho, da vigilância totalitária. É praticamente impossível, numa sociedade do espetáculo, escapar da lógica do big brother, das lentes e câmeras empunhadas por todos ou dispostas por todo o lado nos espaços público e privado. O famigerado aviso “sorria, você está sendo filmado”, por exemplo, já está incorporado de tal maneira em nosso cotidiano que não nos sentimos mal em fazer parte dos inúmeros bancos de imagens espalhados por aí. Já nos sentimos parte do cenário. Não nos incomodamos mais com isso. Naturalizamos o fenômeno. Não percebemos que a privacidade e a liberdade são uma quimera numa sociedade que te captura o tempo todo. Ao contrário, nos sentimos seguros, preferimos a segurança à privacidade ou à liberdade. E é justamente a paranoia do risco, da insegurança, que garante que estes dispositivos panópticos (grande visão) sejam incorporados a nossa vida de forma positiva, até mesmo desejados. Nosso pacto social está mais calcado na segurança do que na liberdade, daí que precisamos ratificar esse pacto cotidianamente, nos abastecendo com mais segurança, com mais dispositivos de captura e vigilância. Nosso fetiche pelas parafernálias de controle é insaciável. Queremos ver tudo o tempo todo. Já tem pais achando interessante colocar câmeras de vídeo (vigilância) nas salas de aula. É a morte da confiabilidade. A desconfiança é endêmica.

Como se não bastassem as câmeras de vigilância espalhadas por todo o lado, um novo dispositivo vêm ganhando força para se somar a elas. Trata-se dos drones (zangão, em inglês), veículos aéreos não tripuláveis (VANT, entre nós), usados pioneiramente pelo exército norte-americano e agora tendente a ser utilizado pelo Estado como instrumento de vigilância urbana. Os drones são veículos de alta tecnologia municiados com câmeras de vídeo (e armamentos, quando em uso militar) com capacidade de captação de imagens/informações a quilômetros de distância de seus alvos. Foram largamente utilizados no “combate ao terror”, como é o caso das intervenções dos EUA no Afeganistão, onde foram disparados, pelos drones rapers (armados), mais de 800 mísseis entre 2011 e 2012. Foi utilizado também para assassinar, à distância, possíveis terroristas (sem processos judiciais e preocupação com danos colaterais, vale notar). Para o uso civil, espera-se que os drones possam vigiar as cidades de uma altura inalcançável para o olho humano. São invisíveis, portanto. Têm enorme autonomia, pequeno tamanho e extrema mobilidade. Prometem ver tudo e todos. A ameaça que os drones trazem para a democracia é evidente, colocam em “xeque” a privacidade, a liberdade e a cidadania. Transformam, como diz Giorgio Agamben, “os espaços públicos das cidades em áreas internas de uma imensa prisão”.

 

Sociedade infantilizada

Publicado na Gazeta do Sul em 17 de maio de 2013


Vários pensadores têm chamado a atenção para o fenômeno da infantilização da sociedade contemporânea. Uma sociedade da jovialidade, que nega o tempo, a velhice e as responsabilidades adultas. Um mundo onde somente o presente tem importância, em que somos o tempo todo convocados a viver intensamente o momento, desafiados a permanecer jovens eternamente, é um mundo do efêmero e da idiotização. A negação da velhice, a tentativa patética de permanecermos jovens, adolescentes anacrônicos, revela uma sociedade deprimida e construída sobre falsos valores. A sociedade infantilizada ou jovial é necessariamente uma sociedade que nega a maturidade, e com ela, toda a responsabilidade que acarreta. É necessariamente uma sociedade imatura, fadada a renunciar à passagem do tempo, à experiência completa da vida. A velhice, chamada cinicamente de “melhor idade”, paradoxalmente, é renegada, justamente quando alcançamos a capacidade inédita da longevidade. Esquece-se que viver mais é viver mais tempo na velhice.

Ao negarmos a maturidade, negamos também o papel pedagógico que os adultos possuem frente a novas gerações. A clareza dos valores sociais, a solidariedade, a capacidade de empatia, a admissão dos limites, o equilíbrio necessário para a renúncia de alguns desejos, tudo isso, são contribuições que, ao negarmos a maturidade, deixamos de compartilhar. Entende-se que os comportamentos eternamente joviais e infantilizados levam também a liquefação das relações sociais e afetivas, como lembra o sociólogo polonês Zigmunt Bauman. As relações afetivas, nesse sentido, tendem à superficialidade e à efemeridade. Esta é uma sociedade hedonista, que busca incessantemente o prazer, que nega todo o tipo de renúncia. E é exatamente isso que faz com que o consumismo seja triunfante. Ele é o “antípoda” da renúncia. Incita que anulemos o tempo entre o desejo e sua satisfação. É o triunfo do imediato. Nessa lógica, toda a espera é obscena, sinal de fracasso.

Ao negar a temporalidade, a passagem do tempo e a velhice, o que estamos fazendo é deixar de experimentar a vida em sua totalidade. Isso tem implicações sociais: uma sociedade que nega a maturidade não sedimenta valores, tende à superficialidade, à desculpabilização, ou melhor, à inocência. A percepção de que nossos atos têm consequência social é desprezada em nome de um individualismo que ignora, sem cerimônias, as cumplicidades coletivas. A virtualidade da eterna juventude nos coloca hoje, como nunca, frente a uma longevidade ao mesmo tempo tão desejada e tão temida.

 

A Política de Cotas no Brasil

Publicado na Gazeta do Sul em 11 de maio de 2013


O sistema de cotas já é visto com mais simpatia pela população brasileira. Uma pesquisa do IBOPE revelou, recentemente, que 62% da população brasileira são favoráveis à implementação de cotas para negros, pobres e alunos de escolas públicas nas universidades. Sem dúvida uma demonstração de sensibilidade para questões sociais que os críticos das cotas ainda não alcançaram. Uma série de críticas ao sistema de cotas aponta para os malefícios que o sistema poderia causar ao ensino superior. Dentre as principais consequências do sistema, destacam-se a perda de qualidade do ensino, em função do baixo nível dos alunos cotistas, o estímulo ao racismo no ambiente universitário e a evasão dos cotistas. Contudo, em outra pesquisa, realizada pela Universidade de Campinas (divulgada pela Istoé), os resultados apontam exatamente o contrário do que predizem os críticos das ações afirmativas, como é o caso das cotas. Os privilegiados, que na realidade se consideram meritórios, que estudam em boas escolas privadas, deveriam, pela “lógica” dos críticos às cotas, perderem suas vagas para alunos sem mérito, que estariam entrando nas universidades pela porta dos fundos. Esperava-se, nessas direções, que alunos não cotistas obtivessem resultados muito superiores aos cotistas na universidade. Imaginava-se, ainda por cima, que esses alunos seriam prejudicados com a queda de qualidade do ensino em função do despreparo dos colegas cotistas. Pois bem, a pesquisa de Campinas revelou exatamente o contrário. Após analisar o desempenho dos cotistas em 33 cursos, constatou-se que eles tiveram melhor desempenho que os não cotistas. Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, um levantamento das notas dos alunos nos últimos cinco anos, demonstrou que os cotistas obtiveram, em média, 6,41 pontos, enquanto os não cotistas obtiveram em média 6,37 pontos. Sobre a evasão, o número de alunos que abandonaram os cursos que escolheram é similar entre cotistas e não cotistas.

A universidade brasileira, seja ela pública estatal, pública não estatal, como as comunitárias (é o caso da UNISC), ou privada, nas últimas décadas, vem assumindo novas responsabilidades sociais. No caso das públicas estatais, com essa nova postura inclusiva, deixou de ser o reservatório histórico de privilegiados amparados pelo discurso do mérito. Finalmente começou a assumir uma postura menos elitista. A nova postura da universidade vem contribuindo decisivamente para o desenvolvimento social do país. São apenas dez anos do sistema de cotas, pode ser cedo para avaliar seu impacto mais amplo, mas, pelo que se tem até o momento, podemos ficar otimistas.

 

História e Cultura Afrodescendente e Indígena

Publicado dia 27 de abril na Gazeta do Sul


Em 2013 comemora-se 10 anos da lei 10.639/03, através da qual se instituiu a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-brasileira no currículo do ensino básico. A lei atendia às históricas reivindicações dos movimentos sociais antirracismo no Brasil e se constitui num marco político-educacional sobre a postura do Estado frente às questões do racismo no país. Foi no governo FHC que pela primeira vez o racismo foi reconhecido oficialmente no Brasil, o que abriu espaço político para a constituição de políticas antirracistas com alcance social mais efetivo. Naquele contexto, em 1996, o governo federal organizou o Seminário Nacional Multiculturalismo e Racismo: o Papel da Ação Afirmativa nos Estados Democráticos Contemporâneos e, em 2001 o Brasil participara da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, promovida pela ONU em Durban, África do Sul. Com o governo Lula os movimentos sociais antirracismo ampliaram significativamente o campo de atuação política. Em 2003 é criada a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, que centraliza e dinamiza a construção de estratégias para a formulação de políticas de ações afirmativas, com destaque para as “cotas raciais”. É nesse contexto que a Lei 10.639/03 foi criada.

Depois de uma década de entrada em vigor dessa lei, urge refletir sobre sua efetividade. Sabemos que uma das grandes barreiras enfrentadas é a formação de professores para atuar nessa área de conhecimento. Some-se a isso a incompreensão de muitos profissionais sobre o significado dessa reforma curricular que, na realidade, impõe que se repense a própria ideia de “identidade nacional”. Uma nova narrativa da nação está em curso e é preciso que os professores e demais profissionais da educação estejam implicados. É nesse sentido que chamamos a atenção para três acontecimentos relacionados a essa urgência reflexiva. O primeiro é a publicação da Revista Reflexão & Ação, do Departamento de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da UNISC, que deve ocorrer ainda no mês me abril. No mês de maio temos dois eventos que pautarão a lei 10.639/03: o painel Os 10 anos da aprovação da Lei 10.639/03: algumas reflexões sobre a atual situação da comunidade negra no Brasil, após 125 anos da abolição, dia 13, às 19h, na sala 101, da UNISC, e o XI Fórum Nacional de Educação, que ocorre nos dias 26/04, 27/04, 17/05 e 18/05. No dia 17/05, às 13h30, acontece o painel Questão Indígena e Afrodescendente, também na UNISC. É preciso que reconheçamos que sabemos muito pouco sobre a História e a cultura afro-brasileira e indígena. Grande parte dos preconceitos é resultado da ignorância. É lamentável que tenhamos uma legislação que obrigue o conhecimento de temáticas que deveriam fazer parte de nosso cotidiano.

Os números da leitura no Brasil

Publicado em 04 de maio de 2013 na Gazeta do Sul




Em que pese os grandes avanços econômicos nos últimos anos, o Brasil ainda não é um país rico e sim um país de ricos. Nossa distribuição de renda é lamentável: 66% dos brasileiros tem renda entre 1 e 5 salários mínimos e 17% renda de até 1 salário. As classes D e E ainda fazem 24% da população e a aclamada classe C representa 51%. A classe B, 23% e a classe A apenas 2%. Estes abismos sociais nos ajudam a entender, também, o nível de penetração da leitura no povo brasileiro. Nunca fomos um país de leitores, é certo, mas os dados apresentados pela pesquisa “Retrato da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-livro, são preocupantes. A pesquisa, divulgada em 2012, apresenta dados levantados em 2007 e 2011, o que permite avaliar como tem “evoluído” o hábito da leitura entre os brasileiros. No geral, entre 2007 e 2011 as coisas pioraram. Estamos lendo menos e muito mal. Vamos a alguns números. A pesquisa considera leitor “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses” e não-leitor “aquele que não leu nenhum livro nos últimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12”. Em 2007 tínhamos 55% de leitores e, em 2011, o índice caiu para 50%. O brasileiro gosta mesmo é de assistir televisão. Ela aparece em primeiro lugar entre as atividades de lazer, com índice de 77% em 2007 e 85% em 2011. Em comparação, a leitura de jornais, revistas, livros e textos na internet aparecem com índice de 36%, em 2007 e 28%, em 2011. Entre os gêneros de leitura que decaíram entre 2007 e 2011 temos a literatura infantil, a juvenil, a poesia, a História, as Ciências Sociais, a Economia e a Política. Ganhou fôlego o gênero dos livros religiosos. Preocupante o desinteresse pela literatura infantil, fase da vida em que a leitura tem chance de se constituir com um hábito. O índice de crianças leitoras caiu de 31%, em 2007, para 22%, em 2011.

O número de livros lidos (inteiro ou parcialmente) também decaiu. Em 2007 se lia 2,4 livros em três meses e, no mesmo período, se lia, em 2011, 1,85 livros. Entre os estudantes, os chamados futuros da nação, os números são desanimadores. Em 3 meses eles leram, em 2011, apenas 3,41livros. O problema é que apenas 1,2 livros por iniciativa própria. 2,21 livros foram lidos porque a escola solicitou/obrigou. Falar nisso, segundo a pesquisa, os professores ainda são os principais agentes fomentadores da leitura. Impressionante, também, o dado de que 56% da população nunca comprou um livro na vida. Sobre o número de livros que o brasileiro tem em casa, entre os leitores, temos um quadro desolador: em 2007 possuíam 25 livros e, em 2011, 34. Em 2007, 23% dos entrevistados declararam não gostar de ler e, em 2011, esse índice subiu para 37%, lamentavelmente. Os gaúchos, sempre orgulhosos de suas façanhas, seguem a decadência. Desabamos de 53% de leitores em 2007 para 43% em 2011. Não podemos esperar um grande futuro.