Sociedade infantilizada

Publicado na Gazeta do Sul em 17 de maio de 2013


Vários pensadores têm chamado a atenção para o fenômeno da infantilização da sociedade contemporânea. Uma sociedade da jovialidade, que nega o tempo, a velhice e as responsabilidades adultas. Um mundo onde somente o presente tem importância, em que somos o tempo todo convocados a viver intensamente o momento, desafiados a permanecer jovens eternamente, é um mundo do efêmero e da idiotização. A negação da velhice, a tentativa patética de permanecermos jovens, adolescentes anacrônicos, revela uma sociedade deprimida e construída sobre falsos valores. A sociedade infantilizada ou jovial é necessariamente uma sociedade que nega a maturidade, e com ela, toda a responsabilidade que acarreta. É necessariamente uma sociedade imatura, fadada a renunciar à passagem do tempo, à experiência completa da vida. A velhice, chamada cinicamente de “melhor idade”, paradoxalmente, é renegada, justamente quando alcançamos a capacidade inédita da longevidade. Esquece-se que viver mais é viver mais tempo na velhice.

Ao negarmos a maturidade, negamos também o papel pedagógico que os adultos possuem frente a novas gerações. A clareza dos valores sociais, a solidariedade, a capacidade de empatia, a admissão dos limites, o equilíbrio necessário para a renúncia de alguns desejos, tudo isso, são contribuições que, ao negarmos a maturidade, deixamos de compartilhar. Entende-se que os comportamentos eternamente joviais e infantilizados levam também a liquefação das relações sociais e afetivas, como lembra o sociólogo polonês Zigmunt Bauman. As relações afetivas, nesse sentido, tendem à superficialidade e à efemeridade. Esta é uma sociedade hedonista, que busca incessantemente o prazer, que nega todo o tipo de renúncia. E é exatamente isso que faz com que o consumismo seja triunfante. Ele é o “antípoda” da renúncia. Incita que anulemos o tempo entre o desejo e sua satisfação. É o triunfo do imediato. Nessa lógica, toda a espera é obscena, sinal de fracasso.

Ao negar a temporalidade, a passagem do tempo e a velhice, o que estamos fazendo é deixar de experimentar a vida em sua totalidade. Isso tem implicações sociais: uma sociedade que nega a maturidade não sedimenta valores, tende à superficialidade, à desculpabilização, ou melhor, à inocência. A percepção de que nossos atos têm consequência social é desprezada em nome de um individualismo que ignora, sem cerimônias, as cumplicidades coletivas. A virtualidade da eterna juventude nos coloca hoje, como nunca, frente a uma longevidade ao mesmo tempo tão desejada e tão temida.

 

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