Usos (e abusos) da História

Publicado dia 27 de julho na Gazeta do Sul


 

Cotidianamente lemos na imprensa manifestações que revelam os usos e abusos da História. Quando se aproxima alguma data dita comemorativa esse fenômeno se torna mais intenso. Uma verdadeira força-tarefa é mobilizada para impor e inculcar suas crendices. É por isso que Revoluções inglórias são elevadas a marcos morais, a façanhas modelares. Histórias e “culturas” locais são transformadas em grandes exemplos civilizatórios. Heróis fundadores e mitos de origem são inventados e ganham vida duradoura. Línguas mortas são elevadas da condição moribunda do desuso à símbolo da diversidade cultural. O elogio da cultura/etnicidade é o combustível do etnocentrismo que se revela nesses fenômenos. O efeito colateral é a cegueira e a incapacidade de autocrítica. Quando usamos a História de forma celebratória, ufanista, como “mestra da vida”, anulamos a capacidade crítica. Jamais uma História assim pode mostrar as misérias, as fraquezas, as injúrias, os crimes, a ignorância, etc... O exercício de ocultação/maquiagem é reforçado periodicamente, de forma ritual. Daí que nas datas comemorativas é tudo repetido, toda a história é recontada, todos os velhos textos, gastos pela replicação, ganham vida e são republicados. Alguns chamam isso de lenga-lenga. Prefiro o termo de Michel Foucault, “História Anedótica”. A História é um campo de disputas. É preciso estar sempre atento, desconfiar sempre. Mesmo a História considerada séria, deve suscitar a crítica e a prudência. Uma História que não se abre para a crítica é dogmática.

Já se inventou que a escravidão no Brasil foi branda, que os portugueses foram escravistas quase bondosos comparados aos seus pares dos EUA. Já se inventou que os imigrantes no Sul do Brasil não possuíam escravos. Revolucionários/caudilhos escravistas já foram transformados em abolicionistas. Bandeirantes caçadores de indígenas para serem escravizados foram transformados em heróis civilizadores. Tiradentes, considerado o pobre coitado dos inconfidentes, foi elevado a herói da pátria por liderar um movimento emancipacionista que nem chegou a acontecer. Os exemplos poderiam se multiplicar ad nauseum.

A Inconfidência Mineira (1789) é paradigmática desse exercício de invenção histórica. Por que os líderes de outra Inconfidência, a Baiana, chamada também de Revolta dos Alfaiates (1798) não foram levados ao panteão dos heróis da independência do país? Na Inconfidência Mineira eram homens da elite mineira, poetas, juristas e senhores de escravos que estavam envolvidos com a divulgação das ideias republicanas. A abolição, contudo, não era uma bandeira. Na Revolta dos Alfaiates os líderes não eram da elite local: um médico, um soldado, alguns alfaiates e muitos escravos. Defendiam a independência, o republicanismo, a abolição da escravatura e a reforma agrária. Os líderes foram enforcados e esquartejados. Por que o silêncio sobre eles e o alardeamento histórico sobre Tiradentes e seus pares de Minas?

 

A Revolta da Chibata

Publicado no Jornal Gazeta do Sul em 13 de julho de 2013


O Brasil tradicionalmente tratou (e trata) como caso de policia as questões que são, evidentemente, sociais. Nossa tradição autoritária e violenta, sobretudo frente aos mais vulneráveis, é evidente ainda hoje, haja vista as ações da polícia frente aos movimentos sociais, como recentemente tivemos a oportunidade de testemunhar. Temos a violência institucionalizada, estruturante da própria formação do Estado. Um Estado que nasce no sistema escravista e nele monta suas engrenagens de poder. Não é de se estranhar um evento como a Revolta da Chibata, ocorrido no Rio de Janeiro em 1910. A revolta aconteceu na Marinha, onde o abismo entre as altas e baixas patentes era abissal, numa clara reprodução da tradição escravista (a abolição ocorreu em 1888). Não era diferente do exército, cujo recrutamento, por exemplo, era forçado, arbitrário e recaia sobre pessoas humildes. Além disso, os soldados eram severamente tratados: sofriam espancamentos disciplinares e recebiam uma ração de péssima qualidade.

Naquele ano de 1910 as coisas chegaram ao seu limite. No navio Minas Gerais, um marinheiro fora condenado a receber 250 chibatadas. Seus companheiros tinham como obrigação assistir o exemplar espetáculo. Sob a liderança de João Cândido (hoje conhecido como o almirante negro), os marinheiros se revoltaram contra os castigos. Mataram o comandante e alguns oficiais do Minas Gerais. João Cândido, então, enviou via rádio uma mensagem ao presidente da República Marechal Hermes da Fonseca, ameaçando bombardear o palácio do Catete caso as reivindicações dos marinheiros não fossem atendidas. Hermes da Fonseca, sem saída, acabou aceitando as reivindicações. O Congresso aprovou às pressas uma lei que bania os castigos físicos nas Forças Armadas e garantia, ainda, anistia aos revoltosos. Assim que os homens liderados por Cândido baixaram as armas, o governo traiu o acordo e massacrou os marinheiros. O almirante negro fora preso na Ilha das Cobras, onde sofreu bárbaras torturas. Chegou a ser confinado com outros 17 companheiros numa cela com espaço mínimo. 16 homens morreram asfixiados. Depois de dois anos de prisão fora absolvido. Expulso da Marinha, sobreviveu, com inúmeras privacidades, como estivador no Rio de Janeiro. João Cândido morreu em 1969. Mesmo tendo lutado pela dignidade da Marinha, jamais teve lugar no panteão do país, reservado aos homens brancos e pertencentes à elite política da nação. Somente em 2008 foi anistiado, mas jamais reintegrado às forças armadas, pois isso implicaria indenizações a seus descendentes e a outras famílias que tiveram parentes entre os revoltosos. Como chamava a atenção Joaquim Nabuco, a escravidão não se restringia em aviltar os escravos, se entranhava em todas as estruturas sociais. Ainda vivemos sob suas marcas.

 

 

De 1992 a 2013

Publicado dia 28 de junho no jornal Gazeta do Sul



Em 1992, depois dos escândalos que envolveram o então Presidente da República, Fernando Collor de Melo, ocorreu a última grande manifestação “popular” no Brasil, a dos chamados caras-pintadas. Naquele contexto, para lembrar, fora descoberto um esquema de corrupção que envolvia o tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo Cesar Farias, o famoso PC-Farias, morto em situação suspeita até hoje não esclarecida. O escândalo fora publicado pela revista Veja, onde uma entrevista bombástica com o irmão do Presidente, Pedro Collor de Melo, divulgava os detalhes do esquema de corrupção que envolvia o governo. Não foi preciso esperar muito para que setores da sociedade iniciassem um movimento contra o governo. A OAB, CNBB e UNE, entre outras entidades, encabeçaram o “Movimento pela ética na Política” e incitaram a população a manifestações. O Presidente, numa tentativa patética de reagir às acusações, convocou a população a vestir as cores da pátria e sair às ruas em seu apoio no domingo de 16 de agosto. Naquele domingo de 1992 milhares de jovens, sobretudo estudantes liderados pela UNE, saíram às ruas vestindo roupas pretas e com o rosto pintado com a mesma cor. O movimento prosseguiu e no dia 25 de agosto mais de 400 mil pessoas ocuparam o Anhangabaú, em São Paulo, seguidos por diversas cidades do país. Em 29 de dezembro Collor renunciou, tentando preservar seus direitos políticos, mas no dia seguinte foi condenado a perdê-los por oito anos. Hoje é senador da República. O movimento que “derrubou” Collor permitia que se identificassem algumas bandeiras politicas, sobretudo à esquerda. Havia ainda um discurso político mais ou menos articulado, mas, ainda assim, fora circunstancial: cobrava-se a queda do Presidente em função da corrupção. Após o “impeachment” de Collor o movimento foi esvaziado. Fora um movimento predominantemente de classe média e apoiado, inclusive, por setores conservadores que haviam inicialmente apoiado o governo Collor.

O movimento que hoje sacode o país iniciou com uma pauta de reivindicações mínima e pragmática e, logo em seguida, se pluralizou e adquiriu dimensões imprevisíveis. Não há bandeiras ideológicas e nem um discurso político articulado. Apontado inicialmente como um movimento de vândalos inconsequentes, em seguida se mostrou como um movimento de massa que abarcava uma série de reivindicações, algumas já alcançadas. O caráter caótico do movimento, sua polifonia, comporta riscos. Não demorou, por exemplo, em receber a simpatia e até o estímulo de setores conservadores, pois, como ficou evidente na última semana, os efeitos colaterais ao governo podiam ser potencializados. Hoje se fala, inclusive, em derrubada do governo, entre outros absurdos. A simpatia com que os protestos estão sendo tratados nos semanários é um elemento importante a ser considerado quando acompanhamos, com certa surpresa, a espetacularização e a longevidade dos mesmos.