A Revolta da Chibata

Publicado no Jornal Gazeta do Sul em 13 de julho de 2013


O Brasil tradicionalmente tratou (e trata) como caso de policia as questões que são, evidentemente, sociais. Nossa tradição autoritária e violenta, sobretudo frente aos mais vulneráveis, é evidente ainda hoje, haja vista as ações da polícia frente aos movimentos sociais, como recentemente tivemos a oportunidade de testemunhar. Temos a violência institucionalizada, estruturante da própria formação do Estado. Um Estado que nasce no sistema escravista e nele monta suas engrenagens de poder. Não é de se estranhar um evento como a Revolta da Chibata, ocorrido no Rio de Janeiro em 1910. A revolta aconteceu na Marinha, onde o abismo entre as altas e baixas patentes era abissal, numa clara reprodução da tradição escravista (a abolição ocorreu em 1888). Não era diferente do exército, cujo recrutamento, por exemplo, era forçado, arbitrário e recaia sobre pessoas humildes. Além disso, os soldados eram severamente tratados: sofriam espancamentos disciplinares e recebiam uma ração de péssima qualidade.

Naquele ano de 1910 as coisas chegaram ao seu limite. No navio Minas Gerais, um marinheiro fora condenado a receber 250 chibatadas. Seus companheiros tinham como obrigação assistir o exemplar espetáculo. Sob a liderança de João Cândido (hoje conhecido como o almirante negro), os marinheiros se revoltaram contra os castigos. Mataram o comandante e alguns oficiais do Minas Gerais. João Cândido, então, enviou via rádio uma mensagem ao presidente da República Marechal Hermes da Fonseca, ameaçando bombardear o palácio do Catete caso as reivindicações dos marinheiros não fossem atendidas. Hermes da Fonseca, sem saída, acabou aceitando as reivindicações. O Congresso aprovou às pressas uma lei que bania os castigos físicos nas Forças Armadas e garantia, ainda, anistia aos revoltosos. Assim que os homens liderados por Cândido baixaram as armas, o governo traiu o acordo e massacrou os marinheiros. O almirante negro fora preso na Ilha das Cobras, onde sofreu bárbaras torturas. Chegou a ser confinado com outros 17 companheiros numa cela com espaço mínimo. 16 homens morreram asfixiados. Depois de dois anos de prisão fora absolvido. Expulso da Marinha, sobreviveu, com inúmeras privacidades, como estivador no Rio de Janeiro. João Cândido morreu em 1969. Mesmo tendo lutado pela dignidade da Marinha, jamais teve lugar no panteão do país, reservado aos homens brancos e pertencentes à elite política da nação. Somente em 2008 foi anistiado, mas jamais reintegrado às forças armadas, pois isso implicaria indenizações a seus descendentes e a outras famílias que tiveram parentes entre os revoltosos. Como chamava a atenção Joaquim Nabuco, a escravidão não se restringia em aviltar os escravos, se entranhava em todas as estruturas sociais. Ainda vivemos sob suas marcas.

 

 

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