De 1992 a 2013

Publicado dia 28 de junho no jornal Gazeta do Sul



Em 1992, depois dos escândalos que envolveram o então Presidente da República, Fernando Collor de Melo, ocorreu a última grande manifestação “popular” no Brasil, a dos chamados caras-pintadas. Naquele contexto, para lembrar, fora descoberto um esquema de corrupção que envolvia o tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo Cesar Farias, o famoso PC-Farias, morto em situação suspeita até hoje não esclarecida. O escândalo fora publicado pela revista Veja, onde uma entrevista bombástica com o irmão do Presidente, Pedro Collor de Melo, divulgava os detalhes do esquema de corrupção que envolvia o governo. Não foi preciso esperar muito para que setores da sociedade iniciassem um movimento contra o governo. A OAB, CNBB e UNE, entre outras entidades, encabeçaram o “Movimento pela ética na Política” e incitaram a população a manifestações. O Presidente, numa tentativa patética de reagir às acusações, convocou a população a vestir as cores da pátria e sair às ruas em seu apoio no domingo de 16 de agosto. Naquele domingo de 1992 milhares de jovens, sobretudo estudantes liderados pela UNE, saíram às ruas vestindo roupas pretas e com o rosto pintado com a mesma cor. O movimento prosseguiu e no dia 25 de agosto mais de 400 mil pessoas ocuparam o Anhangabaú, em São Paulo, seguidos por diversas cidades do país. Em 29 de dezembro Collor renunciou, tentando preservar seus direitos políticos, mas no dia seguinte foi condenado a perdê-los por oito anos. Hoje é senador da República. O movimento que “derrubou” Collor permitia que se identificassem algumas bandeiras politicas, sobretudo à esquerda. Havia ainda um discurso político mais ou menos articulado, mas, ainda assim, fora circunstancial: cobrava-se a queda do Presidente em função da corrupção. Após o “impeachment” de Collor o movimento foi esvaziado. Fora um movimento predominantemente de classe média e apoiado, inclusive, por setores conservadores que haviam inicialmente apoiado o governo Collor.

O movimento que hoje sacode o país iniciou com uma pauta de reivindicações mínima e pragmática e, logo em seguida, se pluralizou e adquiriu dimensões imprevisíveis. Não há bandeiras ideológicas e nem um discurso político articulado. Apontado inicialmente como um movimento de vândalos inconsequentes, em seguida se mostrou como um movimento de massa que abarcava uma série de reivindicações, algumas já alcançadas. O caráter caótico do movimento, sua polifonia, comporta riscos. Não demorou, por exemplo, em receber a simpatia e até o estímulo de setores conservadores, pois, como ficou evidente na última semana, os efeitos colaterais ao governo podiam ser potencializados. Hoje se fala, inclusive, em derrubada do governo, entre outros absurdos. A simpatia com que os protestos estão sendo tratados nos semanários é um elemento importante a ser considerado quando acompanhamos, com certa surpresa, a espetacularização e a longevidade dos mesmos.

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