Nossa tradição escravista

Publicado dia 10 de agosto de 2013 na Gazeta do Sul


 
Sem dúvida a escravidão é o acontecimento mais marcante na história brasileira. São quase quatro séculos, ou melhor, 388 anos, de uma história marcada pela instituição escravista. Não é sem sentido, portanto, afirmar que a história brasileira é, de certa forma, a história da escravidão, tal a forma como esta instituição se entranhou em todas as instâncias da vida nacional. Se já havia uma tendência hierárquica e aristocrática oriunda de Portugal, com o escravismo levamos a verticalização social ao extremo. Fundamos uma sociedade profundamente hierarquizada, moldada pelo servilismo e pela perversidade. Durante todo o período em que a escravidão durou no Brasil, nada escapou a sua penetrabilidade. Toda a estrutura econômica estava assentada no escravo, dos engenhos do nordeste às charqueadas do Rio Grande do Sul. De norte a sul do país, o cativo fazia parte da paisagem social, seja nas lavouras ou nas atividades urbanas, nas zonas de latifúndio ou de imigração. O escravismo foi totalizante. Joaquim Nabuco, o célebre aristocrata-abolicionista, já chamava a atenção em obra incontornável que o sistema escravista não corrompia apenas o escravo, mas também o senhor. Dizia ele que todas as instituições sociais estavam corrompidas pela perversidade da escravidão. O próprio patriarcalismo, desdobrado no nepotismo, na oligarquização do poder político e no patrimonialismo vil, está diretamente vinculado às formas de relações sociais estabelecidas entre a casa-grande e a senzala. Nosso Estado foi construído como uma ampliação da casa e da família e não como negação da casa e da família, como é o Estado Moderno clássico. O poder pessoal é a chave para entender nossa tradição política, pouco afeita a teorias e ideologias políticas e mais afeita ao carismatismo e ao personalismo. Para nós brasileiros é mais importante votar em pessoas do que em ideias ou projetos políticos.

A brutalidade do sistema, em que homens podem ter outros homens como propriedade, deixou marcas profundas em nossa organização social. Veja-se o nosso conservadorismo, incapacidade de trabalho em grupo, insensibilidade para as questões sociais, informalidade nas relações de trabalho, autoritarismo, mandonismo, entre outras. A dificuldade que demonstramos na regulamentação e formalização do trabalho doméstico é um exemplo significativo, recentemente colocado em discussão no país. É bom lembrar que “nossos” empregados domésticos jamais fizeram ou fazem parte da nossa família, como cinicamente ou malandramente dizemos. É justamente essa “familização” nas relações de trabalho que impede o estabelecimento de uma relação de direitos. Trazer um “sujeito” que deveria pertencer à esfera pública (o mundo do trabalho) para dentro das relações familiares é coloca-lo sob uma ordem hierárquica, típica da esfera privada-familiar. Com isso tiramos proveito do trabalho alheio e recompensamos com “afeto familial”. O escravismo nos legou, entre outras mazelas, o cinismo.

 

Nenhum comentário: