Novos figurinos do racismo


A raça, enquanto categoria “cientifica”, fora criada no século XIX, com o movimento que deu origem ao chamado racismo científico ou biodeterminismo. É o período em que, segundo a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), a “raça tornou-se a nova chave da História”. Nesse contexto, a raça funcionou como cimento constitutivo das “identidades nacionais”. A regra era: Um Estado, uma nação, leia-se povo. E povo aqui é entendido como unidade racial. Defendia-se a ideia de pureza racial da nação e o repúdio a toda forma de hibridismo. Uma grande nação era o resultado de uma raça superior, de uma raça eugênica. Um povo racialmente puro garantiria a homogeneidade da nação. Toda essa retórica está presente nos movimentos de unificação e legitimação dos Estados modernos europeus na segunda metade do século XIX. É nesta época, vale frisar, que teve inicio a pavimentação do caminho que levou aos delírios racistas da II Guerra Mundial.

Após a Guerra assistimos a um movimento internacional de repúdio ao racismo, até porque, como lembra o antropólogo Michel Paty, depois da Guerra “o racismo tornou-se vergonhoso e não ousava mais se expor à luz do dia”. Destaca-se que, em 1948, a ONU publicou a “Declaração dos Direitos Humanos”, abominando o racismo. É preciso chamar a atenção para o papel da UNESCO, que mobilizou forças e financiou pesquisas e publicações que contribuíram significativamente para desacreditar a retórica da raça. É digno de nota a publicação, em 1952, a pedido da UNESCO, da obra “Raça e História”, de Claude Levi-Strauss. Nela, o autor desmonta a raça como válida para pensar as diferenças humanas, leia-se culturais. 

Mas eis que nos final dos anos 1970 e, sobretudo nos anos 1980, a raça inicia o seu retorno. Não raras vezes, os discursos racistas se aproveitaram dos movimentos regionalistas e neo-couminitaristas para subsidiar campanhas claramente xenófobas, como ilustra o caso da França, por exemplo. O racismo contemporâneo, contudo, se utiliza de novos figurinos, apoia-se nos conceitos de cultura e etnicidade. É o que chama a atenção o antropólogo Kabengele Munanga, para quem “enquanto o racismo clássico se alimenta na noção de raça, o racismo novo se alimenta na noção de etnia definida como um grupo cultural, categoria que constitui um lexical mais aceitável que a raça (falar politicamente correto)”. Stuart Hall, na mesma direção, afirma que “o racismo biológico e a discriminação cultural não constituem dois sistemas distintos, mas dois registros do racismo”.

Daí que precisamos estar atentos aos movimentos de valorização étnica ou cultural, geralmente ufanistas, autoelogiativos, voltados ao culto e ao resgate do passado e de “tradições” culturais. Para esses propaladores do conservantismo, os vivos devem ser cada vez mais governados pelos mortos, ou antepassados, termo privilegiado neste tipo de retórica. Para eles, a vida deve ser repetitiva e redundante.

 

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