O meu para além do nosso

Publicado dia 24 de agosto de 2013 na Gazeta do Sul


A partir de agora os cariocas irão pagar multa quando descartarem lixo nas ruas. Criar bons hábitos na marra, a custa do sofrimento do bolso ou por outras coerções pode funcionar por um tempo, mas é de duvidar que eles possam ser internalizados. Nossa relação com as ruas é um “problema” desde sempre. A noção que faz da rua um lugar a ser preservado pressupõe um processo de racionalização da vida urbana que fora construído na modernidade desde o final do século XVIII. Nesse processo, a distinção entre as esferas privada e pública fora fundamental, haja vista que a construção da noção de cidadania pressupôs a consciência de que esta é assegurada a partir da legitimação do espaço destinado a coletividade. Entender a rua como espaço compartilhado significa ter clara a ideia de igualdade de direitos, ter desperto o sentimento de cuidado e preservação com o que é “nosso” para além do que é “meu”.

Há nítida relação entre o desleixo com a rua, a depredação do patrimônio público ou coletivo e a corrupção. Temos tanto cuidado com a rua como temos com o erário público. Exemplos não faltam. Dirigimos um automóvel do serviço público ou de uma empresa qualquer em que trabalhamos com o mesmo cuidado com que dirigimos o nosso automóvel?  Temos o mesmo cuidado com os telefones públicos como temos com os nossos aparelhos telefônicos? Cuidamos das nossas classes e cadeiras escolares como cuidamos de nossos móveis domésticos? O lixo das ruas segue lógica parecida.

Essa precária separação entre público e privado está na “raiz” do nosso Estado. O historiador Sérgio Buarque de Holanda abre o seu clássico ensaio “Raízes do Brasil” justamente com essa análise do Estado brasileiro. Em síntese, ao contrário do Estado Moderno que se constituiu a partir da formalização das relações entre indivíduo e Estado, da construção de uma burocracia formal e da racionalização das instituições, no Brasil o que temos é a expansão da matriz familiar. Construímos nosso Estado como uma extensão da família. Não é de graça o nepotismo entranhado na classe política nacional. As redes de compadrio e amizades são fundamentais para entender a construção do campo de ação política no país. Não deixa de ser sugestivo o termo “apadrinhado político”, que remete a relações familiares. É no mesmo sentido que as crianças chamam as professoras de “tias”.

A democracia brasileira se ressente dessas dificuldades. No lugar da construção de comportamentos sociais que traduzem um amadurecimento de nossa cidadania e assim naturalizem hábitos coletivos, optamos pela multa, pela punição pecuniária. Já que a saída encontrada pelo Estado do Rio de Janeiro é ampliação do que já se chamou “indústria das multas”, penso que, pelo menos, a arrecadação resultante deveria ser direcionada à educação.

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