Independências do Brasil

Publicado na Gazeta do Sul em 07 de setembro de 2013



Todo ano, no dia 7 de setembro, ocorre a comemoração da independência do Brasil, ocorrida em 1822. Trata-se do que o antropólogo Roberto DaMatta chama de “festas da ordem”. Festividades voltadas ao civismo, culto a símbolos da pátria, desfiles militares, presença de autoridades e o povo nas bordas assistindo. É de fato um ritual disciplinado e, necessariamente, repetitivo, pois, como se sabe, é a repetitividade que atualiza o evento passado, reintegrando-o no presente.

Essa é, obviamente, uma maneira de “comemorar” o 7 de setembro - a maneira oficial -, que replica ano a ano a narrativa/mito fundacional da nação. Mas existem, é claro, outras formas de comemorar, ou melhor, “memorar juntos”. Aquelas que inquirem o evento, que o historicizam, que o colocam na dinâmica dos processos históricos e, de forma crítica, o problematizam. Nessa perspectiva, por exemplo, deveríamos, antes de “festejar”, entender melhor os acontecimentos. O imaginário popular brasileiro tem numa obra de arte a representação desse nobre acontecimento. Trata-se do quadro de Pedro Américo, intitulado “Independência ou Morte”, de 1888, encomendado por D. Pedro II. A julgar pela obra, que consagra D. Pedro I de espada em punho e montado num grande cavalo de batalha, estaríamos frente a um ato heroico, até mesmo altruísta, que traduz o espírito daquele que se coloca na perspectiva do mártir. A tela de Pedro Américo traduz uma narrativa histórica de cunho épico-romântico, absolutamente comum na época em que foi pintado. Na realidade, D. Pedro I estava montado numa mula, animal adaptado a grandes distâncias e a hercúleos esforços. As roupas surradas foram trocadas pela farda e, evidentemente, o estado de mal-estar e prostração, provocado por uma diarreia terrível, fora ignorado. Como diz José Murilo de Carvalho, um dos mais importantes historiadores do período imperial: “a diarreia fora o motivo da parada da comitiva às margens do Ipiranga (um irreverente poderia acusar dom Pedro de ter iniciado a poluição do desditoso riacho)”. O autor chama a atenção ainda para o incômodo que cercou a obra, pois, tudo indicava, fora uma cópia (plágio) da tela intitulada “1807, Friedland", de Ernest Meissonier, que se referia a uma batalha vencida por Napoleão em 1807.

A independência brasileira, mesmo inspirada no movimento iluminista, que influenciara a independência das colônias latino-americanas na época, manteve, também, a tradição conservadora que caracterizava a barroca corte lusitana de D. João VI. Na Europa, onde o iluminismo/liberalismo havia desestabilizado o regime absolutista, a nobreza passou a ser aburguesada. No Brasil, ao contrário, o que se assistiu foi o enobrecimento da proto-burguesia luso-brasileira com a concessão de títulos de nobreza. Soma-se a esse arranjo político conservador a manutenção da escravidão e da economia baseada na monocultura latifundiária e exportadora. Estava dado o receituário do Estado Brasileiro.

Médicos Cubanos ou negros?

Publicado na Gazeta do Sul em 30 de agosto de 2013


Faz parte de nossa “identidade nacional” não nos percebermos como racistas. Nosso racismo, jamais admitido individualmente ou publicamente, é um fenômeno complexo. A historiadora e antropóloga Lilian Mortiz Schwarcz lembra uma pesquisa realizada na USP sobre o preconceito que é o retrato mais fiel de nosso comportamento frente a esse fenômeno. São apenas duas perguntas: 1) Você é preconceituoso? 97% responderam "não"; 2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% responderam "sim". Conclusão da autora: “todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”. Não é fácil admitir o racismo numa sociedade mestiça em que a convivência interétnica é cotidiana, onde as pessoas compartilham vários espaços sociais sem conflito aparente, como nos campos de futebol, mesas de bares, praças, entre tantos. O fato de o racismo não se manifestar explicitamente, no entanto, não significa que ele seja menos presente em nossa sociedade. É preciso considerar a boa dose de hipocrisia social e o quanto o racismo velado acaba por impedir não só a sua admissão, mas, o que é pior, o seu combate efetivo. Nossa sociedade é, sim, extremamente preconceituosa. O imaginário acerca dos não-brancos no país está mais do que consolidado. Sabemos muito bem o lugar ocupado por não-brancos nas telenovelas, na imprensa, no mercado de trabalho, etc. Mas em alguns contextos o preconceito mostra sua cara explicitamente.

Assistimos essa semana, com a chegada dos médicos cubanos, cenas constrangedoras. E não demorou para que comentários racistas começassem a circular pelas redes sociais. O coroamento desses episódios saiu da boca de uma jornalista potiguar com uma afirmação que traduz com todas as cores como funciona o sistema do racismo nacional. A jornalista Micheline Borges fez a seguinte afirmação, certamente compartilhada, em segredo, por muitos: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica...”. Na continuação, afirma ainda que “Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência”. Como é a cara de médico? Claro que todos nós sabemos. Médicos devem ser brancos, assim como engenheiros, magistrados e professores universitários, para citar algumas profissões consideradas “nobres”. A jornalista acaba por ser porta voz de boa parte de nossa sociedade ao colocar que o fenótipo do negro se adéqua a profissões como “empregados domésticos”. Ser atendido por um garçom negro não é um problema, ao contrário, este é um lugar aceitável para ele, mas ser tratado num hospital por um médico negro causa mal-estar. Independente das questões implicadas no “Programa Mais Médicos” e das relações do governo brasileiro com a ditadura cubana, o fato é que será um bom aprendizado para nós experimentarmos uma nova forma de convívio inter-racial, não em mesas de bares, mas em hospitais, com médicos negros.