Médicos Cubanos ou negros?

Publicado na Gazeta do Sul em 30 de agosto de 2013


Faz parte de nossa “identidade nacional” não nos percebermos como racistas. Nosso racismo, jamais admitido individualmente ou publicamente, é um fenômeno complexo. A historiadora e antropóloga Lilian Mortiz Schwarcz lembra uma pesquisa realizada na USP sobre o preconceito que é o retrato mais fiel de nosso comportamento frente a esse fenômeno. São apenas duas perguntas: 1) Você é preconceituoso? 97% responderam "não"; 2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% responderam "sim". Conclusão da autora: “todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”. Não é fácil admitir o racismo numa sociedade mestiça em que a convivência interétnica é cotidiana, onde as pessoas compartilham vários espaços sociais sem conflito aparente, como nos campos de futebol, mesas de bares, praças, entre tantos. O fato de o racismo não se manifestar explicitamente, no entanto, não significa que ele seja menos presente em nossa sociedade. É preciso considerar a boa dose de hipocrisia social e o quanto o racismo velado acaba por impedir não só a sua admissão, mas, o que é pior, o seu combate efetivo. Nossa sociedade é, sim, extremamente preconceituosa. O imaginário acerca dos não-brancos no país está mais do que consolidado. Sabemos muito bem o lugar ocupado por não-brancos nas telenovelas, na imprensa, no mercado de trabalho, etc. Mas em alguns contextos o preconceito mostra sua cara explicitamente.

Assistimos essa semana, com a chegada dos médicos cubanos, cenas constrangedoras. E não demorou para que comentários racistas começassem a circular pelas redes sociais. O coroamento desses episódios saiu da boca de uma jornalista potiguar com uma afirmação que traduz com todas as cores como funciona o sistema do racismo nacional. A jornalista Micheline Borges fez a seguinte afirmação, certamente compartilhada, em segredo, por muitos: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica...”. Na continuação, afirma ainda que “Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência”. Como é a cara de médico? Claro que todos nós sabemos. Médicos devem ser brancos, assim como engenheiros, magistrados e professores universitários, para citar algumas profissões consideradas “nobres”. A jornalista acaba por ser porta voz de boa parte de nossa sociedade ao colocar que o fenótipo do negro se adéqua a profissões como “empregados domésticos”. Ser atendido por um garçom negro não é um problema, ao contrário, este é um lugar aceitável para ele, mas ser tratado num hospital por um médico negro causa mal-estar. Independente das questões implicadas no “Programa Mais Médicos” e das relações do governo brasileiro com a ditadura cubana, o fato é que será um bom aprendizado para nós experimentarmos uma nova forma de convívio inter-racial, não em mesas de bares, mas em hospitais, com médicos negros.

 

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