A erotização da infância

Publicado dia 02 de outubro da Gazeta do Sul


Os franceses surpreenderam quando resolveram legislar sobre a presença do véu islâmico nas escolas do país. Sinais dos tempos, tempos de crise da ideia republicana que tem na França um dos modelos mais inspiradores do Ocidente. Agora, na quarta-feira passada, os franceses tocaram noutro ponto delicado. Legislar sobre a participação das “meninas” nos concursos de miss. Segundo o projeto, está proibida a realização de concurso de beleza para menores de 16 anos. A votação no congresso foi significativa: 146 votos favoráveis e um contrário, o que mostra certo consenso (falta a aprovação na Câmara Baixa do Legislativo). O que os parlamentares alegam é que a medida visa conter a “sexualização excessiva” das crianças. Chantal Jouanno, apresentadora da proposta, afirmou no Senado: "Não permitamos que nossas meninas acreditem desde cedo que seu único valor está na aparência e que os interesses comerciais pesem mais que os interesses sociais". Em que pese os argumentos prós e contras ao projeto, o que merece atenção, de fato, é o próprio fenômeno dos Concursos de Misses para crianças.

A moda não iniciou na França, onde foi introduzida há mais ou menos duas décadas. Iniciou nos anos 1960, nos EUA, em plena expansão da sociedade de consumo, do individualismo extremado, da construção de uma sociedade da aparência, do espetáculo, e, vale notar, em plena ascensão da indústria pornográfica.

Ao contrário do que defendia o movimento feminista naquele contexto, como maior expressão das mulheres na sociedade, calcada na inteligência, produtividade econômica, participação nas esferas políticas, independência, entre outras, o movimento das “minimisses” norte-americanas acabava por legitimar uma visão machista sobre o papel das mulheres, além de, como fora denunciado, erotizar a infância. Os concursos adquiriam uma dimensão nacional rapidamente e não demorou também que abusos fossem observados. Algumas meninas, entre 4 e 6 anos, foram/são submetidas a rotinas estressantes e invasivas. Maquiagens pesadas, penteados e colorações artificiais nos cabelos, dietas severas e até cirurgias plásticas. A internet está povoada com as fotos dessas meninas plastificadas. O que salta aos olhos, em muitas delas, é a expressão adultizada e fútil, quando não triste, que nada lembra a infância. Não se trata, como está claro, da beleza da infância e sim da infância travestida com o modelo da “beleza” de adultas.

No Brasil a erotização da infância tem início nos anos 1980, quando o fenômeno Xuxa invadiu o país. Os concursos também passaram a ocorrer por aqui, menos “profissionalizados”, mas promissores. Hoje, com a consagração de uma sociedade da aparência e das celebridades, o fenômeno é percebido acriticamente como normal. Particularmente não sou favorável que se legisle sobre esse tipo de coisa, mas vejo esses concursos com preocupação. Não agregam nada à sociedade, só alimentam bizarrices do hiperindividualismo acéfalo.

Escola de Princesas!

Publicado dia 07 de outubro de 2013 na Gazeta do Sul


Na semana passada chamava a atenção para as bizarrices dos concursos de minimisses e para o fenômeno da erotização da infância. Penso que devemos aprofundar um pouco mais o assunto e, nesse sentido, retorno a ele essa semana.

Desde os anos 1960, o modelo de beleza feminino sofreu drástica transformação, se deslocando das curvas de uma Marilyn Monroe para o tipo adolescente, magérrimo e quase andrógeno, inaugurado pela modelo britânica Twiggy. Numa época em que as mulheres entravam definitivamente para o mundo do trabalho, o modelo Twiggy era uma forma de se despojar não apenas de um estereótipo de beleza tradicional, mas também dos valores femininos aí agregados. Porém, numa sociedade de hiperconsumo, não é de se estranhar que mesmo as formas estéticas de resistência sejam plastificadas, embaladas e colocadas no mercado. Daí que dos anos 1960 em diante o modelo de beleza feminino ficou mais ou menos definido, consagrado em estereótipos como o da boneca Barbie. O que chama a atenção, nesse processo, é como a infância, sobretudo feminina, foi sendo gradativamente sequestrada por esses padrões de beleza que se equilibram entre o erótico e o fútil. Para a pesquisadora norte-americana, Meenakshi Durham, o modelo de beleza infantil difundido pela mídia está imensamente distanciado da realidade. Um modelo de beleza inalcançável sem que se lance mão dos produtos das indústrias de cosméticos e de cirurgia plástica.

Na mesma direção dos concursos de misses infantis e da construção de um imaginário estético feminino grotesco, mas sedutor, assistimos a um movimento que se diz pedagógico e educativo que visa instruir meninas segundo o modelo das “princesas”. Desde janeiro de 2013 funciona em Uberlândia a Escola de Princesas. A Escola é um sucesso. Em pouco tempo já passaram por ela mais de 500 alunas, e ainda tem fila de espera. Alguns dados permitem caracterizar a Escola de Princesas como sendo uma verdadeira Escola de Amélias, para usar a expressão de uma internauta injuriada. Na Escola, localizada num “castelo” adornado com uma bandeira cor-de-rosa e dourada, há a oferta de vários cursos, destinados a crianças de 4 a 15 anos. 80% das matriculadas tem entre 6 e 8 anos. Segundo a pedagoga da Escola, o curso mais requisitado é o chamado “Vida de Princesa”. Em ambiente caracterizado como um palácio de princesas, com suítes, salas de chás, etc, as meninas aprendem, por exemplo, noções de beleza, maquiagem, costura, culinária, boas maneiras e estética de princesa e rainha.  Segundo a pedagoga da Escola, “o diferencial (da Escola) é que vai muito além dos cursos básicos de boas maneiras”. Aí é que está o problema. Tanto os concursos de minimisses como projetos “educativos” como esse, deturpam o que se entende por infância e, por desdobramento, o que se entende como sendo o lugar da mulher na sociedade contemporânea.

 

Quanto Vale o X de Eike?

Publicado dia 12 de outubro na Gazeta do Sul



Eike Batista é (foi) um sucesso, um empresário fashion que levou o Brasil para o ranking dos bilionários do planeta. Símbolo do crescimento econômico da era Lula, o mega-empresário, proprietário da holding EBX, foi unanimidade nas capas de revistas dos homens bem sucedidos do país. As empresas de Eike Batista levam as iniciais de seu nome, acrescidas da letra X, que simboliza, no dizer do empresário, multiplicação e capacidade de gerar riquezas. A EBX atua nos setores de Petróleo (OGX), energia (MPX), mineração (MMX), logística (LLX), indústria naval (OSX), mineração de carvão, entre outros. Representante máximo do self-made-man nacional, era a boa matriz da meritocracia, prova cabal de que o Brasil podia entrar no jogo do neoliberalismo com competência e confiabilidade. É verdade, o sucesso de Eike era de tal monta que a confiabilidade internacional no país havia melhorado em função da ascensão do empresário.

Eike pousou de bom-moço, fez filantropia, ostentou carros, aviões e escreveu um livro intitulado “O X da questão”, onde narra suas receitas de sucesso. Tem um filho chamado Thor, playboy obcecado pelo corpo, que se orgulha de nunca ter lido um livro na vida e recentemente fora condenado por homicídio culposo por atropelar e matar o ciclista Wanderson Pereira dos Santos.

No mundo líquido do neoliberalismo nada está efetivamente seguro, nada tem previsibilidade confiável. Depois de uma série de equívocos da petrolífera OGX o império veio abaixo. Desta vez nem as receitas de autoajuda resolveram os problemas de Eike. Depois de figurar em oitavo lugar entre os mais ricos do mundo, segundo a Forbes Magazine, com uma fortuna avaliada em 34, 5 bilhões de dólares, viu durante o último ano seus ativos encolherem 99%, segundo a agência de notícias Bloomberg. Da mesma forma que no passado recente “melhorou” a imagem do Brasil no exterior, assiste agora, a desconfiança generalizada. O próprio Ministro da Fazendo Guido Mantega chamou a atenção que a situação da OLX já causou problema para a imagem da economia do Brasil. A expectativa de um calote vai se confirmando. Tudo indica que o Grupo X vai dar um calote de US$ 45 milhões, referente a juros devidos ao mercado internacional. Dentre as desculpas para crise, Eike cita até mesmo seu mapa astral, que apontava para dificuldades que está passando. Desculpas esdrúxulas a parte, o fato é que o Grupo X deixou de multiplicar e as perdas afetam o próprio país. Eike captou recursos junto ao BNDE e Caixa Federal, que agora acompanham apreensivas o desenrolar dos acontecimentos. Agora é esperar para ver. No capitalismo tupiniquim, historicamente os lucros são privatizados e as perdas socializadas. Não é sem sentido o fato de o Brasil ser um país de riquezas, mas não é um país rico. É um país de ricos.

 

 

Cultura da Violência e Tortura

Publicado dia 19 de outubro na Gazeta do Sul


Recentemente, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei que cria o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Com a Lei se instituirão, também, duas estruturas para monitorar casos de tortura e maus-tratos no Brasil: o Comitê de Prevenção e Combate à Tortura e o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura. Um comitê de peritos federais terá autonomia para entrar, sem aviso prévio, em presídios, delegacias, hospitais psiquiátricos e asilos para inspecionar possíveis casos de violações aos direitos humanos. O Comitê tem autonomia para convidar observadores, especialistas e representantes de instituições públicas e privadas para contribuírem nas inspeções. Esse é um passo importante, pois evita que essas instituições maquiem seus ambientes em ocasiões em que as inspeções são pré-agendadas.

Dentre as violações dos direitos humanos (conceito ainda mal-entendido pela sociedade brasileira, vale lembrar), a tortura é, provavelmente, a mais dramática, pois demonstra uma cultura da violência institucionalizada no Estado, mas, o que é mais preocupante, com a anuência e até simpatia de parte sociedade. Por que não nos sensibilizamos com a violência de Estado, como a policial? Por que não nos escandalizamos com tais práticas nos hospícios, asilos e outras “instituições que deveriam ser de cuidado”? O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) - 2009/2010 chama a atenção para a cultura da violência no país. Segundo o texto, a violência, que não se pode confundir com criminalidade, “é um comportamento que se aprende”. A violência simbólica, por exemplo, “está intimamente relacionada aos valores compartilhados pela sociedade, pois os valores atribuem conteúdos e significados à realidade e são continuamente produzidos e reproduzidos na interação social dos indivíduos em determinado grupo social, sendo capazes de gerar situações de desrespeito. Ou seja, a caracterização de um ato como violência depende de percepções culturais e históricas, que mudam ao longo do tempo. Nesse sentido, o limite a partir do qual um ato é percebido como violento não é algo predefinido e imutável, mas delineado cultural e historicamente”.

A tortura, como ato violento extremo, faz parte da História recente do Brasil. As ditaduras de Vargas (1937-45) e, especialmente, a Militar (1964-85), usaram e abusaram dessas práticas cotidianamente. Em ambas as ditaduras a polícia foi fartamente utilizada para os propósitos políticos dos governos. É lamentável que o Brasil não tenha sido capaz, a exemplo do Chile e da Argentina, de passar a limpo sua execrável História. Ao respeitar uma Lei de anistia casuísta, deixou de punir os assassinos que, em nome do Estado, aviltaram a sociedade. O legado dessas ditaduras está institucionalizado e continua a alimentar a cultura da violência.  

História em farrapos

Publicado dia 21 de setembro de 2013 na Gazeta do Sul


Setembro vai e volta e a mesma recorrência de discursos laudatórios sobre a “façanha” dos farrapos se faz onipresente na imprensa, clubes e, o que é pior, nas instituições de ensino do Estado. Não se tem registro na História do Brasil de um evento tão manipulado e cercado por fábulas, “mitos” e romantismos descabidos. O 20 de setembro ancora a chamada tradição gaúcha na Revolução Farroupilha, através de um discurso muito bem arranjado, mas desprovido de conteúdo histórico.

A versão oficial da Revolta dos Farrapos, hoje popularizada e onipresente na imprensa, é o resultado de manipulações e remendos históricos que deveriam, ao contrário de despertar tanto orgulho, causar certo constrangimento. A começar pelo lema dos estancieiros, chamados de “revolucionários”: liberdade, igualdade e humanidade. Em si é uma contradição. Em nada os estancieiros e charqueadores eram abolicionistas. Ao contrário, são por demais conhecidas as relações dos líderes farrapos com o escravismo. Os principais deles deixaram escravos aos seus herdeiros. Bento Gonçalves, quando morreu, em 1847, tinha na sua estância Christal, na região de Camaquã, 53 escravos. Como fica demonstrado na obra “História Regional da Infâmia”, de Juremir Machado, a venda de escravos ajudou a financiar a Revolução. Domingos José de Almeida, um dos que venderam seus escravos para financiar o movimento, findado o conflito, andava a cobrar o reembolso da venda de sua escravaria. Chegou a mobilizar Canabarro para que o apadrinhasse junto a Caxias para receber de volta o dinheiro da venda de seus escravos. Domingos José de Almeida, por sinal, estava envolvido em casos de corrupção, denunciado pelo próprio Vicente da Fontoura.

Como se não bastasse o escravismo empedernido dos farroupilhas, a Grande Revolução tem como um de seus momentos finais atos de traição vergonhosos: traíram os escravos dos imperiais que lutaram ao lado dos farrapos com a promessa da liberdade. Depois do conflito, através de uma negociata para concluírem Ponche Verde, devolveram os negros ao Império. Traíram os negros lanceiros, que lutaram pela revolução, no episódio de Porongos, onde foram assassinados.

A defesa do charque e de uma política tributária mais amena, na realidade, atendia o interesse somente de estancieiros e charqueadores. Defender a economia do charque é o mesmo que legitimar o trabalho escravo, em que ela estava absolutamente estruturada.  A cultura rio-grandense tem inúmeras riquezas, assentá-la em eventos como a Revolução Farroupilha em nada colabora para seu “enobrecimento”. O lamentável de tudo isso, é assistir os espaços educacionais que deveriam ter por princípio o compromisso com o conhecimento histórico, se renderem a um discurso que só alimenta a inércia cultural do Rio Grande do Sul. Para os interessados no conhecimento histórico sério, vale a pena a leitura, além do livro citado acima, do texto de Moacyr Flores, intitulado “O Mito do Gaúcho”, disponível na internet.

A erotização da infância

Publicado em 30 de setembro de 2013 na Gazeta do Sul


Os franceses surpreenderam quando resolveram legislar sobre a presença do véu islâmico nas escolas do país. Sinais dos tempos, tempos de crise da ideia republicana que tem na França um dos modelos mais inspiradores do Ocidente. Agora, na quarta-feira passada, os franceses tocaram noutro ponto delicado. Legislar sobre a participação das “meninas” nos concursos de miss. Segundo o projeto, está proibida a realização de concurso de beleza para menores de 16 anos. A votação no congresso foi significativa: 146 votos favoráveis e um contrário, o que mostra certo consenso (falta a aprovação na Câmara Baixa do Legislativo). O que os parlamentares alegam é que a medida visa conter a “sexualização excessiva” das crianças. Chantal Jouanno, apresentadora da proposta, afirmou no Senado: "Não permitamos que nossas meninas acreditem desde cedo que seu único valor está na aparência e que os interesses comerciais pesem mais que os interesses sociais". Em que pese os argumentos prós e contras ao projeto, o que merece atenção, de fato, é o próprio fenômeno dos Concursos de Misses para crianças.

A moda não iniciou na França, onde foi introduzida há mais ou menos duas décadas. Iniciou nos anos 1960, nos EUA, em plena expansão da sociedade de consumo, do individualismo extremado, da construção de uma sociedade da aparência, do espetáculo, e, vale notar, em plena ascensão da indústria pornográfica.

Ao contrário do que defendia o movimento feminista naquele contexto, como maior expressão das mulheres na sociedade, calcada na inteligência, produtividade econômica, participação nas esferas políticas, independência, entre outras, o movimento das “minimisses” norte-americanas acabava por legitimar uma visão machista sobre o papel das mulheres, além de, como fora denunciado, erotizar a infância. Os concursos adquiriam uma dimensão nacional rapidamente e não demorou também que abusos fossem observados. Algumas meninas, entre 4 e 6 anos, foram/são submetidas a rotinas estressantes e invasivas. Maquiagens pesadas, penteados e colorações artificiais nos cabelos, dietas severas e até cirurgias plásticas. A internet está povoada com as fotos dessas meninas plastificadas. O que salta aos olhos, em muitas delas, é a expressão adultizada e fútil, quando não triste, que nada lembra a infância. Não se trata, como está claro, da beleza da infância e sim da infância travestida com o modelo da “beleza” de adultas.

No Brasil a erotização da infância tem início nos anos 1980, quando o fenômeno Xuxa invadiu o país. Os concursos também passaram a ocorrer por aqui, menos “profissionalizados”, mas promissores. Hoje, com a consagração de uma sociedade da aparência e das celebridades, o fenômeno é percebido acriticamente como normal. Particularmente não sou favorável que se legisle sobre esse tipo de coisa, mas vejo esses concursos com preocupação. Não agregam nada à sociedade, só alimentam bizarrices do hiperindividualismo acéfalo.