A erotização da infância

Publicado em 30 de setembro de 2013 na Gazeta do Sul


Os franceses surpreenderam quando resolveram legislar sobre a presença do véu islâmico nas escolas do país. Sinais dos tempos, tempos de crise da ideia republicana que tem na França um dos modelos mais inspiradores do Ocidente. Agora, na quarta-feira passada, os franceses tocaram noutro ponto delicado. Legislar sobre a participação das “meninas” nos concursos de miss. Segundo o projeto, está proibida a realização de concurso de beleza para menores de 16 anos. A votação no congresso foi significativa: 146 votos favoráveis e um contrário, o que mostra certo consenso (falta a aprovação na Câmara Baixa do Legislativo). O que os parlamentares alegam é que a medida visa conter a “sexualização excessiva” das crianças. Chantal Jouanno, apresentadora da proposta, afirmou no Senado: "Não permitamos que nossas meninas acreditem desde cedo que seu único valor está na aparência e que os interesses comerciais pesem mais que os interesses sociais". Em que pese os argumentos prós e contras ao projeto, o que merece atenção, de fato, é o próprio fenômeno dos Concursos de Misses para crianças.

A moda não iniciou na França, onde foi introduzida há mais ou menos duas décadas. Iniciou nos anos 1960, nos EUA, em plena expansão da sociedade de consumo, do individualismo extremado, da construção de uma sociedade da aparência, do espetáculo, e, vale notar, em plena ascensão da indústria pornográfica.

Ao contrário do que defendia o movimento feminista naquele contexto, como maior expressão das mulheres na sociedade, calcada na inteligência, produtividade econômica, participação nas esferas políticas, independência, entre outras, o movimento das “minimisses” norte-americanas acabava por legitimar uma visão machista sobre o papel das mulheres, além de, como fora denunciado, erotizar a infância. Os concursos adquiriam uma dimensão nacional rapidamente e não demorou também que abusos fossem observados. Algumas meninas, entre 4 e 6 anos, foram/são submetidas a rotinas estressantes e invasivas. Maquiagens pesadas, penteados e colorações artificiais nos cabelos, dietas severas e até cirurgias plásticas. A internet está povoada com as fotos dessas meninas plastificadas. O que salta aos olhos, em muitas delas, é a expressão adultizada e fútil, quando não triste, que nada lembra a infância. Não se trata, como está claro, da beleza da infância e sim da infância travestida com o modelo da “beleza” de adultas.

No Brasil a erotização da infância tem início nos anos 1980, quando o fenômeno Xuxa invadiu o país. Os concursos também passaram a ocorrer por aqui, menos “profissionalizados”, mas promissores. Hoje, com a consagração de uma sociedade da aparência e das celebridades, o fenômeno é percebido acriticamente como normal. Particularmente não sou favorável que se legisle sobre esse tipo de coisa, mas vejo esses concursos com preocupação. Não agregam nada à sociedade, só alimentam bizarrices do hiperindividualismo acéfalo.

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