Escola de Princesas!

Publicado dia 07 de outubro de 2013 na Gazeta do Sul


Na semana passada chamava a atenção para as bizarrices dos concursos de minimisses e para o fenômeno da erotização da infância. Penso que devemos aprofundar um pouco mais o assunto e, nesse sentido, retorno a ele essa semana.

Desde os anos 1960, o modelo de beleza feminino sofreu drástica transformação, se deslocando das curvas de uma Marilyn Monroe para o tipo adolescente, magérrimo e quase andrógeno, inaugurado pela modelo britânica Twiggy. Numa época em que as mulheres entravam definitivamente para o mundo do trabalho, o modelo Twiggy era uma forma de se despojar não apenas de um estereótipo de beleza tradicional, mas também dos valores femininos aí agregados. Porém, numa sociedade de hiperconsumo, não é de se estranhar que mesmo as formas estéticas de resistência sejam plastificadas, embaladas e colocadas no mercado. Daí que dos anos 1960 em diante o modelo de beleza feminino ficou mais ou menos definido, consagrado em estereótipos como o da boneca Barbie. O que chama a atenção, nesse processo, é como a infância, sobretudo feminina, foi sendo gradativamente sequestrada por esses padrões de beleza que se equilibram entre o erótico e o fútil. Para a pesquisadora norte-americana, Meenakshi Durham, o modelo de beleza infantil difundido pela mídia está imensamente distanciado da realidade. Um modelo de beleza inalcançável sem que se lance mão dos produtos das indústrias de cosméticos e de cirurgia plástica.

Na mesma direção dos concursos de misses infantis e da construção de um imaginário estético feminino grotesco, mas sedutor, assistimos a um movimento que se diz pedagógico e educativo que visa instruir meninas segundo o modelo das “princesas”. Desde janeiro de 2013 funciona em Uberlândia a Escola de Princesas. A Escola é um sucesso. Em pouco tempo já passaram por ela mais de 500 alunas, e ainda tem fila de espera. Alguns dados permitem caracterizar a Escola de Princesas como sendo uma verdadeira Escola de Amélias, para usar a expressão de uma internauta injuriada. Na Escola, localizada num “castelo” adornado com uma bandeira cor-de-rosa e dourada, há a oferta de vários cursos, destinados a crianças de 4 a 15 anos. 80% das matriculadas tem entre 6 e 8 anos. Segundo a pedagoga da Escola, o curso mais requisitado é o chamado “Vida de Princesa”. Em ambiente caracterizado como um palácio de princesas, com suítes, salas de chás, etc, as meninas aprendem, por exemplo, noções de beleza, maquiagem, costura, culinária, boas maneiras e estética de princesa e rainha.  Segundo a pedagoga da Escola, “o diferencial (da Escola) é que vai muito além dos cursos básicos de boas maneiras”. Aí é que está o problema. Tanto os concursos de minimisses como projetos “educativos” como esse, deturpam o que se entende por infância e, por desdobramento, o que se entende como sendo o lugar da mulher na sociedade contemporânea.

 

Um comentário:

Coisas de Tássia disse...

Belo texto Mozart. Não conhecia esta escola, nossa que horror, lutamos tanto por preservar a essência da infância, livres destes rótulos e as pessoas vem com propostas deste nível. Lamentável os pais que matriculam suas filhas lá.

Abraços,