História em farrapos

Publicado dia 21 de setembro de 2013 na Gazeta do Sul


Setembro vai e volta e a mesma recorrência de discursos laudatórios sobre a “façanha” dos farrapos se faz onipresente na imprensa, clubes e, o que é pior, nas instituições de ensino do Estado. Não se tem registro na História do Brasil de um evento tão manipulado e cercado por fábulas, “mitos” e romantismos descabidos. O 20 de setembro ancora a chamada tradição gaúcha na Revolução Farroupilha, através de um discurso muito bem arranjado, mas desprovido de conteúdo histórico.

A versão oficial da Revolta dos Farrapos, hoje popularizada e onipresente na imprensa, é o resultado de manipulações e remendos históricos que deveriam, ao contrário de despertar tanto orgulho, causar certo constrangimento. A começar pelo lema dos estancieiros, chamados de “revolucionários”: liberdade, igualdade e humanidade. Em si é uma contradição. Em nada os estancieiros e charqueadores eram abolicionistas. Ao contrário, são por demais conhecidas as relações dos líderes farrapos com o escravismo. Os principais deles deixaram escravos aos seus herdeiros. Bento Gonçalves, quando morreu, em 1847, tinha na sua estância Christal, na região de Camaquã, 53 escravos. Como fica demonstrado na obra “História Regional da Infâmia”, de Juremir Machado, a venda de escravos ajudou a financiar a Revolução. Domingos José de Almeida, um dos que venderam seus escravos para financiar o movimento, findado o conflito, andava a cobrar o reembolso da venda de sua escravaria. Chegou a mobilizar Canabarro para que o apadrinhasse junto a Caxias para receber de volta o dinheiro da venda de seus escravos. Domingos José de Almeida, por sinal, estava envolvido em casos de corrupção, denunciado pelo próprio Vicente da Fontoura.

Como se não bastasse o escravismo empedernido dos farroupilhas, a Grande Revolução tem como um de seus momentos finais atos de traição vergonhosos: traíram os escravos dos imperiais que lutaram ao lado dos farrapos com a promessa da liberdade. Depois do conflito, através de uma negociata para concluírem Ponche Verde, devolveram os negros ao Império. Traíram os negros lanceiros, que lutaram pela revolução, no episódio de Porongos, onde foram assassinados.

A defesa do charque e de uma política tributária mais amena, na realidade, atendia o interesse somente de estancieiros e charqueadores. Defender a economia do charque é o mesmo que legitimar o trabalho escravo, em que ela estava absolutamente estruturada.  A cultura rio-grandense tem inúmeras riquezas, assentá-la em eventos como a Revolução Farroupilha em nada colabora para seu “enobrecimento”. O lamentável de tudo isso, é assistir os espaços educacionais que deveriam ter por princípio o compromisso com o conhecimento histórico, se renderem a um discurso que só alimenta a inércia cultural do Rio Grande do Sul. Para os interessados no conhecimento histórico sério, vale a pena a leitura, além do livro citado acima, do texto de Moacyr Flores, intitulado “O Mito do Gaúcho”, disponível na internet.

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